• Repare Quilombo

É novembro e o pós-pandemia é aqui: racismo antinegro no seu novo-normal

Por Eumara Maciel

Imagem meramente ilustrativa/Foto: Lúcia Fabiana

Estava tentando me situar na escrita, neste atípico novembro, para pensar no que é o normal? Se formos às letras, seria a norma, a regra, o usual, o comum, o natural. A palavra estaria sendo retomada no âmbito de uma explicação social para falar dessa reinvenção dos nossos modos de vida frente às demandas da pandemia do também novo Coronavírus da Sars-CoV-2, que causa a COVID -19: o novo-normal, visando, em tese, adaptações para garantir a sobrevivência e um dado bem-estar.


Sim, mas a serviço de quem está esse novo-normal?


É até sensorial, vou dizer assim, a percepção dos que estão ou não incluídos em políticas efetivas de garantia de um dado bem-estar na regra-2020; dá para ver e ouvir o tempo inteiro quem perdeu nessa reconfiguração outra do modo de vida. Tem cor, tem classe, tem também gênero. Está na estrutura, no naturalizado, no institucional, ora, a escravidão dos povos negros já não foi um novo-normal no Brasil colônia? Não era legítima, em termos de Lei mesmo, a exploração da mão de obra das populações negras para a manutenção do bem-estar de um topo hierárquico? As bases do Brasil são racistas. Isso é consciência negra. Um país construído sobre o sangue de trabalhadores escravizados, construído sobre corpos indígenas, construído sob o secular signo da violência colonial, sob a égide do racismo, sobre as nossas vidas.

Mas por que estamos aqui recorrendo a essa memória histórica e racializando tal debate? Isso também é consciência negra e digo que é incontornável voltar ao passado para entender o presente e as projeções para o futuro. Temos história e precisamos estudá-la para entender por que estamos falando de estruturas excludentes que ainda não foram de todo superadas, de colonialidades que inviabilizam um estimulado isolamento físico-social que salvaria vidas. Que vidas? Demandas dessas macro e microviolências contra as populações negras foram escancaradas na pandemia.


Dúvidas?


Respondam: Quem são os corpos que passam pelas consequências negativas do novo-normal-2020? Prestem atenção até mesmo nos tendenciosos noticiários. Quem está aos montes nos transportes públicos? Observem quem vai às ruas para trabalhar informalmente e fica mais exposto ao vírus, suscetível à contaminação? Eu disse: a intersecção de gênero também é marcada; segundo o Ipea, 63% das trabalhadoras domésticas são mulheres negras. Para trabalhar nos serviços ditos essenciais ou essencializados para atender às necessidades das elites, em 2020, durante a pandemia, quem está? Ou mesmo qual o perfil do público-alvo da concessão do auxílio dito emergencial?


Olha, em 2018, segundo dados do IBGE, os brancos ganhavam quase o dobro do que os negros no contexto do emprego-renda... Na pesquisa do mesmo ano, era de 14,1% a taxa de desocupação da população negra no Brasil: elevem à potência dos números pandêmicos. Números! Somos 56% da população do Brasil, negros. Os historicamente vulneráveis. Da escravização ao desemprego ou à uberização do trabalho... Quem pode estar em casa trabalhando? No seu home office, quem vai entregar sua comida? Satisfeito? Pergunto, pergunto, pergunto. Quem são as populações mais atingidas pela contaminação e morte na pandemia: veja! Há marcadores étnicos e raciais que refletem o acesso aos serviços de saúde: em abril, eram 32,8% das mortes pelas complicações da COVID-19. E hoje? Já é normal? Já é novembro...


Imagem meramente ilustrativa/Foto: Lúcia Fabiana

E como está sua consciência negra?


Há muito, é novo-normal o exercício da necropolítica, para usar a palavra do camaronês Achille Mbembe, quando oito em cada 10 pessoas vítimas de homicídio são negras, quando 75% das mortes causadas pela violência policial, em suas operações, têm como alvos os corpos dos jovens negros: a cada 23 minutos, um jovem negro é morto pela polícia... Ou quando 56% da população carcerária é negra ou quando a violência doméstica contra as mulheres negra é maior do que contra as mulheres brancas. São dados mensurados! Naturalizamos? O que diz o contrário?

Certa vez li uma colocação do congolês Kabenguele Munanga, que disse que o racismo no Brasil é um crime perfeito. E é. Percebam que há várias formas de ser racista e através delas... Matar. Negar saneamento básico, de negar digna moradia, negar acesso à saúde e à educação (a taxa de analfabetismo é de 9,1% entre os jovens negros maiores de 15 anos), negar condições de trabalho, negar políticas públicas, enfim, negar direitos básicos é uma forma de discriminação: é inconstitucional! Cadê o Estado que se diz democrático para garantir a essas populações os direitos iguais? Essa consciência negra nós temos?


São sofisticadas as instaurações de condições de vulnerabilidade das populações negras vítimas de um racismo que mata física e mentalmente, há dados também deste adoecimento. Nessa reconfiguração do normal, reconfigura-se também o racismo, mais um exercício de epistemicídio das comunidades historicamente marginalizadas.

Tenho muito medo do novo-normal naturalizando formas de vida mais hostis, tenho medo dessa banalização das vidas e das vidas marcadamente banalizadas, mais uma vez. Da banalização da gravidade das questões que nos são postas, que não podem mais ser adiadas para não naturalizemos novamente as formas assumidas pelo racismo.


Se há, neste tempo e neste espaço de tentativa de naturalização de formas que atentam contra nós, estejamos pautando causas antirracistas, tensionando estruturas que nos excluem, investindo em abalos epistemológicos, mostrando nossas perspectivas, reivindicando nossos direitos. Se há crise, não só sanitária, e estamos inscritos nela, manifestemo-nos no sentido da mudança de perspectiva que não a heteronormatiava branca, rica, cis. Estejamos atentos às discussões que estão sendo travadas coletivamente contra o racismo antinegro e tenhamos a consciência de que se tivermos a criatividade de aquilombar nossos saberes e fazeres há uma força temida por quem sempre nos reprimiu.


Precisamos recorrer a esse poder para garantir a nossa existência: somos, hoje, de longe, a parte da população que mais morre vítima do Coronavírus. Precisamos ter essa consciência negra... E depressa.

Brasil, 19 de novembro de 2020: 167.590 mortos pela COVID-19. Nosso pós-pandemia é aqui. Isso não é normal. Reparemos...


_Eumara Maciel é doutora em Estudos Étnicos e Africanos pela Universidade Federal da Bahia (CEAO/UFBA), e colunista do Repare Quilombo.


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