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25 de julho – Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha

“Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”. Angela Davis


Por Sirlene Santos


Em 1992, aconteceu em Santo Domingo, na República Dominicana, a realização do 1º Encontro de Mulheres Afro-latino-americanas e Afro-caribenhas, assim nascia a Rede de Mulheres Afro-latino-americanas e Afro-Caribenhas. A Rede, junto à Organização das Nações Unidas (ONU) lutou para o reconhecimento do dia 25 de julho como o Dia Internacional da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha.


Os Governos democráticos acolheram a data para sua agenda e no Brasil, no governo da ex-presidenta Dilma, em dois de junho de 2014, foi instituído, por meio da Lei nº 12.987, o dia 25 de julho como o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, homenageando uma das principais mulheres quilombolas, símbolo de resistência e importantíssima liderança na luta contra a escravização.


A população negra no Brasil corresponde à maioria, e entre as mulheres somos mais de 25 milhões de brasileiras na luta para eliminar desigualdades e discriminações.


A Mulher Negra é sinônimo de resistência, força e luta. Neste 25 de julho o Repare Quilombo homenageia Mulheres Negras de Morro do Chapéu. E que todas as Marias, Claudias, Raíssas, Izabeis, Anaildes, Elianas, Andreias sintam-se representadas e fortaleçam a luta no combate a todo tipo de opressão.

Professora Andréia, 40 anos/Imagem: Dione Oliveira

Andréia Bispo Santos nasceu em uma manhã de inverno rigoroso de Morro do Chapéu-BA, aos 03 de julho de 1980. É a sexta filha de Umbelina Bispo Santos e José do Espírito Santo, ambos já falecidos. Embora fossem pobres e analfabetos sempre acreditaram que a educação era a única herança que poderia deixar para os filhos.


Andréia é a primeira da família a concluir o Ensino Médio e ingressar em uma Universidade Pública. Desta maneira, cursou Letras Vernáculas na UNEB (Campus IV – Jacobina). Foi um período marcado por muitas dificuldades já que na época precisava viajar todos os dias. Foi nesse período de faculdade, em 2007, quando cursava o 4º semestre, que Andréia perdeu a sua mãe, que sempre foi a sua grande incentivadora. Neste período de turbulência e desejo de abandonar os estudos, ela recebeu o apoio de uma tia (em memória), dona Nita, que foi o seu porto seguro e a incentivou a prosseguir. E assim, ela conseguiu concluir a graduação em 2009, mas Andréia se deparou com outro problema: o desemprego. As portas estavam fechadas para ela, que não tinha experiência no currículo e nem tinha “amigos” que a indicassem para um emprego. Para Andréia, este é um dos grandes estigmas de ser mulher negra morrense.


Em 2009, no último concurso público realizado em Morro do Chapéu, Andréia conquistou o seu espaço enquanto educadora. Assim começou a trabalhar na rede pública de ensino do município como professora de Língua Portuguesa. Considerando a importância de investir na formação profissional e humana, em 2016, ela realizou o curso de especialização em Educação Especial e Inclusiva (UESSBA – Faculdade do Sertão). Atualmente, Andréia está na coordenação pedagógica da Escola Yêda Barradas Carneiro, desde o ano de 2017. Há três anos, Andréia “avançou” enquanto mulher negra: casou-se oficialmente com a mulher da sua vida, com quem já tinha um relacionamento que fazia quatro anos. Este foi o segundo estigma que ela descobriu: ser mulher negra e lésbica. Foram anos de sofrimento em silêncio, muitos momentos de solidão e medo, entretanto quando a sua família descobriu a orientação sexual de Andréia, ela foi acolhida e respeitada. A professora de português é feliz e fortalecida, mas ainda sonha com o dia em que todas as pessoas serão respeitadas, independente de etnia, credo ou orientação sexual. E neste dia nenhum jovem precisará sofrer em silêncio por medo de revelar o seu verdadeiro eu. Como diz o cantor e compositor Oswaldo Montenegro “Que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio”.

Anailde, da Comunidade Quilombola de Gruta dos Brejões/Imagem: Arquivo Pessoal

Anailde Pereira dos Santos, nascida em 15 de maio de 1970, é a presidente da Associação da Comunidade Quilombola de Gruta dos Brejões. A Gruta é um dos pontos turísticos mais exorbitantes do município de Morro do Chapéu. Anailde também trabalha como condutora de visitantes. Ela recepciona e apresenta os atrativos naturais da comunidade para os turistas.


Ana Raissa, da Comunidade Quilombola de Velame/Imagem: Arquivo Pessoal

Ana Raissa Brito Duarte, 17 anos, reside na Comunidade Remanescente Quilombola de Velame e faz parte do Samba de Roda e do Terno de Reis da comunidade. Foi criada ao redor de grandes inspirações negras para ela, a sua mãe, tias, Tita e Delza, Nena, as benzedeiras da comunidade, entre tantas outras. São exemplos de resiliência que Ana Raissa leva na vida; são exemplos de força e luz que iluminam o seu caminho como mulher, como negra, como quilombola. Mulheres de pele e alma como a dela que a ensinam a cada dia a ser voz ativa na comunidade, ser inspiração pra outras que virão e entendendo o seu lugar de continuidade das que vieram antes de Ana Raissa.


Em memória, Cláudia, da Ponta D'água/Imagem: Arquivo Pessoal

Cláudia Bonfim de Oliveira faleceu em julho do ano passado aos 39 anos de idade. Moradora do povoado de Ponta D’água, Cláudia deixou nove filhos. Bastante popular, Cau, como era conhecida por amigos, sempre foi batalhadora; acordava cedo e fazia a “correria do dia” necessária para colocar o que comer na mesa no final da tarde para os seus filhos e filhas. Símbolo de garra, luta seria uma das palavras para definir a passagem de Cláudia aqui na terra; uma luta que sempre foi para ser respeitada e para sobreviver.


Dona Izabel, da Comunidade Quilombola de Gruta dos Brejões/Imagem: Eliecy Silva

Dona Izabel Silva tem 75 anos de idade. Moradora da comunidade de Gruta dos Brejões, aos 25 anos casou-se com Almiro de Souza; desse casamento, tiveram cinco filhos, e uma filha, que tempos depois foi acolhida com muito amor e orgulho pela família Silva. Na década de 90, por exemplo, foi um dos períodos mais difíceis da sua vida, que teve que lidar com a morte do esposo e cuidar dos filhos, ainda pequenos. Dona Izabel sobreviveu, resiste e é mais uma das muitas guerreiras do nosso município.


Eliana, da Comunidade Quilombola de Queimada Nova/Imagem: Arquivo Pessoal

Eliana Santos do Rosário Neri é a primogênita de uma família de três irmãos (Erenilton, Silvanilton e Reinilton). Nasceu no dia 04 de junho de 1988 na cidade de Morro do Chapéu. Filha dos agricultores Edilson Souza Neri e Heliene Santos do Rosário Neri. Ela é moradora do Quilombo de Queimada Nova. Atua como professora do ensino fundamental I de Queimada e do quilombo de Ouricuri II. Teve uma infância difícil, ao sair do ceio familiar aos oito anos de idade para morar com alguns familiares, com o interesse de estudar, pois almejava vários objetivos para a sua vida, um deles era dar uma condição de vida melhor para a sua família. Com muitas batalhas, ela alcançou muitos, mas ainda almeja mais. Já foi líder da pastoral da criança, fez parte da diretoria de associação local, coordenadora de grupo de jovens da igreja católica. Hoje é membro da associação quilombola, faz parte de grupos e projetos sociais da comunidade. É militante dos direitos das mulheres, acredita na força e no poder da mulher buscar enaltecer e empoderar suas parceiras. Faz parte do coletivo de Mulheres Quilombolas em Ação. Luta e acredita por uma educação quilombola de qualidade.


Maria das Graças, da Comunidade Quilombola de Veredinha/Imagem: Sirlene Santos

Maria das Graças santos da Silva, nascida em 27 de junho de 1964, na comunidade Quilombola de Veredinha; é filha de Helena Machado dos Santos e Joaquim Gomes de Araujo. Maria das Graças tem dois irmãos e tinham uma vida simples, humilde, mas com criação digna, tornaram-se grandes cidadãos. O seu pai faleceu e a sua mãe, uma guerreira, lutou para criar os filhos com a ajuda da minha sua avó, dona Leonor Soares. Maria das Graças conta que nunca se separou dessas duas mulheres fortes que a ensinou a respeitar as pessoas. Depois de um tempo, mudou-se para morar na cidade de Morro do Chapéu, onde tive oportunidade de estudar. Depois, ela se casou com Edivaldo Gonçalves. Dessa união, teve seis filhos, o que a impediu de estudar. Depois de muito tempo, ela retornou à sala de aula, e concluiu o ensino médio e fiz o tão sonhado curso Técnico de Enfermagem. Maria das Graças é grata a sua família e a duas pessoas que a ajudaram muito; ela conta que sem a ajuda dessas pessoas, não teria conseguido: Sr. João Cerqueira e Dona Kátia que possibilitaram que ela fizesse um curso particular. Hoje, Maria das Graças é uma profissional de saúde e tem muito orgulho da profissão, e ama o que faz.


_Sirlene Santos é diretora de conteúdo do Repare Quilombo.

_Nathan Rocha colaborou nestes perfis.

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