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25 de Maio – Dia da África: o que a tradição oral negro-africana tem a nos dizer?

Por Eumara Maciel

Dona Lúcia Batista da Silva, da Comunidade Quilombola de Queimada Nova/Imagem de Júnior Lima, meramente ilustrativa, que compõe o livro de receitas Sabores do Quilombo/2021

“Qualquer adjetivo seria fraco para qualificar a importância que a tradição oral tem nas civilizações africanas. Nelas, é pela palavra falada que se transmite, de geração em geração, o patrimônio cultural de um povo.” Amadou Hampâté Bâ (1979, p.10-11).


Tomando parte do que diz a epígrafe deste texto, partamos também do princípio de que a fala é sagrada, força criadora, e que, para as sociedades da palavra falada ao Sul do Saara, como ressaltou Jan Vansina (2010), ela também é a responsável pela organização das relações intersubjetivas. É através da palavra que as realidades são criadas, daí a formação também dos ditos patrimônios materiais e imateriais dessas culturas. E não só: o homem é feito de palavras.


Aqui, o papel da tradição oral nesses contextos: a formação da pessoa e da ligação entre elas, na maioria das vezes, iniciática, é assentada pela palavra, pela educação geracional, afinal: “É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança”, diz um provérbio da literatura oral negro-africana. E é boca a ouvido que ocorre a circulação de uma memória de valores civilizacionais caros à manutenção da própria vida. Existe o homem porque existe a palavra.


Em outros termos, quando um conto negro-africano nos diz sobre a história de dois lagartos que brigavam em cima de um telhado e que nenhum dos outros animais, mesmo advertidos apenas pelo leal cão, quis intervir em tal conflito por considerá-lo irrelevante, estamos sendo educados sobre a importância da gestão de conflitos quando ocorreu que, após o incêndio causado pela queda daqueles dois envolvidos na querela sobre a lâmpada de azeite, todos os animais, tendo negado a ajuda, pagaram, em diferentes situações, com a própria vida como consequência do individualismo, da falta de empatia e da arrogância. Ao repetir que: “Não existe briga pequena”, o cão estava certo: guerras nascem assim... Muitas não poderiam ser evitadas? Poderíamos ter prezado pela vida como dita a máxima ancestral? Aprenderíamos se ou(víssemos) o que esses saberes e fazeres, também literários, têm a nos dizer.


Transmitidas oralmente, essas e outras narrativas que tecem toda a História da África são apreendidas cotidianamente, como pontuaria o maliense Hampâté Bâ (1998, p.11), na “Universidade da Palavra ensinada à sombra dos baobás” pelos mais velhos e mais velhas ou pelos griot ou griotes. Os griô (aportuguesando o termo francês) são narradores socioprofissionais da região da África Ocidental, que são iniciados especificamente para a lida com a palavra: a palavra é a matéria-prima do seu ofício: “Diz-se que: ‘O ferreiro forja a Palavra, o tecelão a tece, o sapateiro amacia-a curtindo-a’” (HAMPÂTÉ BÂ, 2010, p.185) e o griô prepara a palavra e os silêncios para fazer viver a história.


Esses narradores são o sangue que faz pulsar a história da própria África


Seus corpos-textos (FREITAS, 2006) em performance fazem o movimento ancestral da oralitura, que, na definição do intelectual nigeriano Félix Ayoh’Omidire (2005), é a oralidade manifestando culturas. Então, o griô vai “[...] recorrendo à história, à genealogia, à tradição e a um exercício performático que se apoia em manifestações diversas como o canto falado, a poesia, as narrativas orais, a encenação, a música, a mímica e a dança” (QUEIROZ, 2007, p. 42), para retroalimentar as memórias dessas sociedades, portanto, sua continuidade.


É importante destacar que, ao contrário do que prega o pensamento ocidental, a ausência de escrita alfabética não exclui sociedades do mapa da História, pelo contrário: não faz a oralidade nascer a escrita? A escrita é, portanto, a continuação da oralidade. (LEITE,1998). Estamos aqui em defesa de epistemologias da oralidade e não pela hierarquização das formas assumidas pela linguagem, usadas, há muito, para a exclusão de discursos e de corpos da via de existência. Ademais, vários outros tipos de escritas já foram identificados na História do continente africano: por terra, estaria o argumento hegeliano.


O que nos preocupa, entretanto, é ver a modificação das dinâmicas internas e externas da transmissão dos conhecimentos. As colonizações minaram em muito esses processos... Os novos imperialismos não poupam esforços para fazer o mesmo. Amadou Hampâté Bâ alertou que “Na África, cada ancião que morre, é uma biblioteca que se queima”. É preciso, portanto, ficar atento ao que é dito pelos nossos mais velhos e, sim, registar em outros suportes, para que esses saberes-fazeres sejam também base para a construção do modo de vida contra-colonial que precisamos assumir e que pode ser alimentado também pelos ensinamentos da tradição oral dos nossos ancestrais negro-africanos para garantir a nossa continuidade.


Aprendamos com o sentindo comunitário, com o respeito religioso pela natureza, com a ancestralidade, com a ancianidade... Aprendamos, então, com o que disseram os que vieram antes de nós na África e na diáspora.



Referências bibliográficas:


AYOH’OMIDIRE, F. Yorubanidade mundializada: o reinado da oralitura em textos yorubá-nigerianos e afro-baianos contemporâneos. 2005. 380 f;

VANSINA, J. “A tradição oral e sua metodologia”. In: KI-ZERBO, Joseph. História geral da África, I: Metodologia e pré-história da África. 2. ed. Brasília: UNESCO, 2010;

LEITE, A. M. Oralidades e escritas nas literaturas africanas. Lisboa, Edições Colibri, 1998;

HAMPÂTÉ BÂ, Amadou. Amkoullel, o menino fula. Trad. Xina Smith de Vasconcellos. São Paulo, Palas Athena/Casa das Áfricas, 2003.

____. A tradição viva. In: KI-ZERBO (Editor). História geral da África, I: Metodologia e pré-história da África. Brasília: UNESCO, 2010;

QUEIROZ, A. O. As inscrituras do verbo: dizibilidades performáticas da palavra africana. 2007. 310f. Tese (Doutorado) - Universidade Federal de Pernambuco, Programa de Pós- graduação em Letras, Recife;

FREITAS, Henrique. O arco e a arkhé: ensaios sobre literatura e cultura. Salvador: Ogum’s Toques Negros, 2016.


_Eumara Maciel é doutora em Estudos Étnicos e Africanos pela Universidade Federal da Bahia (CEAO/UFBA), e colunista do Repare Quilombo.

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