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A Caixa D’água que não é vista da Avenida Joel Modesto não é azul, é desigual

Atualizado: 7 de Jun de 2020

Desigualdade social em Morro do Chapéu não é recente, entretanto, assim como em todo o Brasil, ficou ainda mais evidente com a pandemia do novo coronavírus.


Por Nathan Rocha


Adriana de Souza Santana, 22 anos, desempregada, moradora da Caixa D’água/Imagem: Nathan Rocha

Desde muito antes da pandemia causada pelo novo coronavírus, Mailde Paulo dos Santos, 54 anos, que mora na Caixa D’água, bairro mais populoso de Morro do Chapéu, não tem renda fixa. “Eu trabalho fazendo bico aí nas roças, um dia aqui, outro acolá”, diz. Ela explica que ganha R$ 45,00 por dia, no entanto, “a gente não trabalha a semana toda. Tem vez que só trabalho dois dias na semana, quando alguém me chama pra pegar um tomate, um morango”, relata Mailde, que no momento não consegue nenhuma diária devido à pandemia.


Mailde Paulo dos Santos, 54 anos, mora na Caixa D'água há 18 anos/Imagem: Nathan Rocha

Sem acesso a nenhum benefício social e morando sozinha, Mailde lida com um problema na porta da sua casa. Existe uma água que escorre ladeira abaixo, e passa por algumas ruas da Caixa D’água. Segundo a moradora, o problema é permanente, e a água “vem da serra”, conta. “Essa água aqui já teve casos, danos, brigas. Essa água corria por ali, por detrás da minha casa, aí, eu fechei ali, mas ficou empossando naquela casa”, aponta Mailde se referindo à casa do vizinho. “Daí, os meninos ‘tirou’ também e veio para o meio da rua; o outro vizinho não quer que passe na porta”, explica.


Com a rua sem pavimentação e com a água escorrendo, que se transforma em esgoto a céu aberto, Mailde não sabe mais o que fazer para solucionar o problema. “Vai ficando aí, o povo vai brigando, vai reclamando, mas ninguém nunca fez nada por isso aí”, lamenta.


Ainda conforme Mailde, a Caixa D’água não tem representação política e nem associação de moradores. “Na Caixa D’água, falar a verdade, falo assim, com toda sinceridade: nunca houve representante, nenhum vereador sequer. Só vejo assim, no tempo da eleição, o povo vem aqui, pede voto, e quando passa, fica aí a mesma tragédia”, critica.


Frente da casa de Mailde na Rua da Abolição/Imagem: Nathan Rocha

“Há muito tempo que não tem energia, e nem água também. Todo dia temos que ir pegar água no cano”, conta Adriana de Souza Santana, 22 anos, também moradora da Caixa D’água e desempregada, que sobrevive apenas com R$ 268,00 mensais, oriundos do Programa Bolsa Família.


De acordo com informações disponibilizadas no site da Caixa, em todo o Brasil, mais de 13,9 milhões de famílias são atendidas pelo Bolsa Família. Aliás, esse programa social é a única renda fixa da casa de Adriana, que mora com a sua filha de quatro anos de idade, o marido e o sogro; ambos, também, sem nenhuma renda fixa.


“Nós já ‘acostumou’ já, a gente acende uma vela aí, mas não temos medo”, garante Adriana/Imagem: Nathan Rocha

Adriana diz que não tem condições financeiras para pagar as contas de água e de luz, e explica que “precisa sim de uma ajuda, mas não tem como”, relata, porque, conforme a jovem, na maioria das vezes, “as pessoas só dão palavras falsas e não ajudam”, desabafa. Nesse sentido, não são apenas algumas pessoas que se recusam a ajudar. Segundo Adriana, o poder público municipal também não tem ajudado em nada.


Enquanto não tem uma oportunidade de emprego ou não recebe algum tipo de ajuda, Adriana conta que ratos e escorpiões aparecem na casa. “Já matei um escorpião mesmo aí dentro do banheiro”, afirma, porém, ela diz também que não tem medo de morar no escuro: “Nós já ‘acostumou’ já, a gente acende uma vela aí, mas não temos medo”, garante. Por outro lado, Adriana teme pela estrutura precária da pequena casa, que “molha por essa brecha aí da cozinha, sai alagando tudo; é tudo rachado aí por dentro”, conta.


Com as chuvas, a lama se agrava na Rua da Abolição/Imagem: Nathan Rocha

“Nós temos a maior dificuldade, assim, porque não temos água encanada. Então, a água pra lavar as mãos é a do cano. Não temos álcool em gel, a gente lava as mãos com detergente”, explica Adriana a respeito de como faz para se proteger da Covid-19, já que lavar as mãos com frequência, é uma das medidas mais recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para impedir a contaminação pelo novo coronavírus.


Neste sentido, é importante lembrar que a Secretaria Municipal de Saúde de Morro do Chapéu, confirmou no último dia 05 de junho de 2020, o terceiro caso positivo para coronavírus no município.


Local que Adriana pega água para o seu consumo/Imagem: Nathan Rocha


Como superar a desigualdade social?



Fernanda Ferreira, 38 anos, assistente social/Imagem: Arquivo Pessoal

Para Fernanda Ferreira, 38 anos, assistente social e especialista em Política de Atendimento Integral à Família - Instituto Aleixo/MG, existe dois pontos importantes que precisam ser observados para entender e superar a desigualdade social no Brasil. O primeiro, conforme Fernanda é reconhecer que a sociedade brasileira vem de uma construção escravocrata, e fatores como “racismo, questões de gênero e tributação de impostos, contribuem e explicam a manutenção da desigualdade social”, diz.


O segundo ponto mencionado pela assistente social é referente à necessidade de se “reconhecer os efeitos da desigualdade social e suas possíveis causas”, conta Fernanda, que exemplifica: “falta de acesso à educação de qualidade; dificuldades de acesso a serviços básicos, saúde, transportes públicos, saneamento básico, baixos salários e política fiscal injusta”.


Atualmente, Fernanda trabalha no Cadastro Único e Programa Bolsa Família do município de Morro do Chapéu, e ela explica que esses programas, criados entre 2001 a 2003, se consolidaram “como uma importante ferramenta de combate à desigualdade no país”, afirma. Entretanto, “foi possível observar no dia a dia dos atendimentos às pessoas, que nos últimos anos, com os cortes cada vez mais comuns do Programa Bolsa Família, à população mais vulnerável impulsionou o aumento da extrema pobreza no município”, explica.


Dessa forma, ainda conforme Fernanda houve um “aumento da procura pela população por benefícios, por cestas básicas, dentre outros benefícios e programas sociais”, finaliza.


Fonte - PNUD, Ipea e FJP

Sendo assim, é importante ressaltar que, dados divulgados pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) em 2010, mostram que o munícipio de Morro do Chapéu, tinha 71,85% de pessoas vulneráveis à pobreza. O dado é uma proporção dos indivíduos com renda domiciliar per capita igual ou inferior a R$ 255,00 mensais, equivalente a meio salário mínimo. E o percentual de pessoas com água encanada naquele mesmo período, ainda conforme o PNUD era de 74,88% da população.


Já o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM), de Morro do Chapéu é 0,588, o que situa esse município na faixa de Desenvolvimento Humano Baixo, entre 0,500 e 0,599, também de acordo com o último relatório divulgado pelo PNUD, em 2010.


A Caixa D’água tem um CRAS


CRAS Caixa D'água/Imagem: Jhonatas da Silva Oliveira

Localizado na Rua Oldegar Alvin, o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) Caixa D’água, abrange também os bairros Alto da Chapada e Rodoviária; além de 24 comunidades rurais, entre povoados, distritos, assentamentos e fazendas das regiões do Extremo Norte, Sul e Oeste do município, conforme apurou o Repare Quilombo.


O principal programa executado pelo CRAS, que tem o objetivo de prevenir a ocorrência de situações de vulnerabilidade e riscos sociais nos territórios, é o Programa de Atendimento Integral às famílias (PAIF), conforme Patrícia Nunes dos Santos, 37 anos, que é assistente social e atual coordenadora do CRAS Caixa D’água.


Grupo Girassol/Imagem: Mateus Kaled

“As famílias atendidas pelo CRAS Caixa D’água são de baixa renda, em situação de vulnerabilidade social”, explica Patrícia. O CRAS tem capacidade de 500 atendimentos por ano, no entanto, “a quantidade de atendimento supera em 100%”, revela a coordenadora. São 15 serviços ofertados pelo CRAS Caixa D’água. Conforme Patrícia, o Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (SCFV), por exemplo, está “parado, devido à pandemia”, diz.


Ainda de acordo com Patrícia, os grupos realizados no CRAS são compostos pelo grupo de idosos, grupo de mulheres e o grupo de mulheres gestantes. “O Grupo Girassol, que é o grupo de idosos, atende, em média 40 idosos. Já o grupo de mulheres tem um quantitativo de 40 mulheres, sendo esse grupo, rotativo, mudando o seu público de três em três meses, e o grupo de gestantes, também rotativo, recebendo em torno de 15 gestantes”, explica Patrícia.


Social Live


Print feito pelo Repare Quilombo, durante live do deputado federal Daniel Almeida (PC do B)

Em live no instagram, na sexta-feira 22 de maio de 2020, o deputado federal Daniel Almeida (PC do B), e Ângela Guimarães, presidenta nacional da Unegro, discutiram sobre a População negra, desigualdades e ações no combate ao coronavírus. “A cada atraso do pagamento do Auxílio Emergencial mais e mais famílias se desesperam, por não terem do que sobreviver nessa crise sanitária e econômica”, disse a militante em relação ao benefício criado pelo governo federal, com o objetivo de garantir proteção emergencial às pessoas vulneráveis durante a pandemia.


Conforme Ângela, “na ausência das ações coordenadas pelo governo federal, são as redes de solidariedade que estão aparando essas pessoas”, disse. Porém, ela entende “que essa rede não vai suportar, até porque vivemos um momento de insegurança, com uma pandemia que não sabemos quando terá fim”, lamentou a presidenta nacional da Unegro.




“É necessário que a gente enfrente essa desigualdade social”


Durante a live, a militante de Salvador, ainda falou que agora é hora de pensar naquela pessoa que não tem nenhum amparo. Nesse sentindo, “as pessoas têm as suas exigências”, relatou Ângela, que sugere: “Nós precisamos colocar em debate um programa econômico permanente, porque eram 50 milhões de ‘invisíveis’, que agora não são mais invisíveis. E quem tá na base é a população negra, que sofre por falta de saneamento básico, que sofre de racismo, que tem dificuldade de trabalho, que recebe menos quando tem trabalho”, explicou.


Panorama nacional


A nota técnica publicada no dia 17 de abril de 2020, pela Rede de Políticas Públicas e Sociedade, revelou o número de trabalhadores afetados no Brasil pela covid-19, na qual pesquisadores, concluíram que 81% da força de trabalho (75,5 milhões de pessoas) experimenta algum tipo de vulnerabilidade em virtude dos efeitos da pandemia do novo coronavírus.


Os trabalhadores identificados como mais vulneráveis, seja em São Paulo ou no Maranhão, respectivamente o estado mais rico e o mais pobre do país, estão igualmente sujeitos a perda significativa do emprego e/ou deterioração da renda.


Ainda de acordo com a nota técnica, trabalhadores de serviços domésticos, cabeleireiros, de manutenção e reparação de veículos automotores, por exemplo, que ocupam posições e vínculos mais instáveis em setores não essenciais, pertencem ao grupo dos extremamente vulneráveis. Eles são 23,8 milhões de brasileiros e representam 25.5% da população.


Já o Brasil, independente da pandemia, é o sétimo país mais desigual do mundo, conforme relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).


* Nathan Rocha é repórter do Repare Quilombo

* Sirlene Santos colaborou nesta reportagem.

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