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Agricultura familiar movimenta quase seis mil reais em 1ª edição da Feira de Ouricuri II

“O que faz com que esse dinheiro circule aqui perto da gente, que cresça a nossa economia local e desenvolva cada vez mais a nossa região”, comemora Lula.


Por Nathan Rocha

Feira da Agricultura Familiar e Economia Solidária da Comunidade Quilombola de Ouricuri II/Imagem: Sirlene Santos

Luciano Bernardo de Brito, 44 anos, Lula do Velame, como é conhecido, é educador popular pela Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares (CONTAG), e é também um dos idealizadores da Feira da Agricultura Familiar e Economia Solidária, que acontece desde junho de 2020, na Comunidade Quilombola de Ouricuri II.


Permanente no povoado, a Feira já era um desejo antigo de Luciano Bernardo, mas foi devido à pandemia do novo coronavírus, principalmente, que a comunidade percebeu “o risco eminente dos agricultores da região ao se deslocarem semanalmente para Cafarnaum, com casos confirmados [da covid-19], para América, Morro do Chapéu, e isso deixou a gente muito inquieto”, conta.

Luciano Bernardo de Brito, 44 anos, Lula do Velame/Imagem: Sirlene Santos

A inquietação sentida pelo educador popular e demais agricultores rurais da região, que mais produz cebola no município morrense, segundo Lula, foi percebida também pelo Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Morro do Chapéu (STTR), que, coletivamente, contribuiu para que o sonho se tornasse realidade. “A primeira edição da Feira teve uma participação excepcional. Foi acima do que a gente esperava, no sentido de fluxo de pessoas e também de vendas, porque a gente não teve uma divulgação tão massiva. Toda divulgação foi feita via zap, facebook e muito restrita ao povo da região”, disse Brito ao Repare Quilombo.


Apesar da divulgação feita apenas nas redes sociais, o fluxo de consumidores no primeiro domingo de feira, por exemplo, rendeu um lucro de R$ 5.800,00 em média a todos os feirantes, conforme apurou a reportagem. “Isso, apenas no circuito da feira. O que faz com que esse dinheiro circule aqui perto da gente, que cresça a nossa economia local e desenvolva cada vez mais a nossa região”, comemora Lula.

Despertar para a prática de troca de sementes e de produtos entre agricultores e consumidores é justamente um dos objetivos da feira/Imagem: Sirlene Santos

20 expositores trabalham diretamente na feira. Todos esses feirantes receberam barracas padronizadas da Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional (CAR). Contudo, Lula se arrisca, e faz uma estimativa de outros 100 agricultores que trabalham de forma indireta na Feira do Quilombo de Ouricuri II. “São beneficiários também pelo fato de passarem a sua mercadoria. Muito do que é produzido na feira, são dos próprios feirantes, mas eles sempre pegam do vizinho. O que não tem o ovo da galinha, pega com o vizinho; pega a alface com o outro, a batata”, explica.


Neste sentido, além de garantir a segurança alimentar e valorizar a produção de alimentos saudáveis; despertar para a prática de troca de sementes e de produtos entre agricultores e consumidores é justamente um dos objetivos da feira, no quilombo.


Banana, goiaba, melancia, tomate, coentro, couve e cebolinha são alguns dos produtos mais comercializados na feira que “vai acontecer sempre aos domingos”, afirma Lula, que ressalta: “sempre com distanciamento de dois metros entre cada barraca, uso de máscara, álcool gel e muita orientação para a boa higienização dos alimentos ao chegar em casa”, conclui.


“Eu trabalho com o orgânico. O meu produto é 90% orgânico”


“Eu convido as pessoas para irem lá ver, eu não trabalho com produto químico”, garante o pequeno produtor rural do povoado de Totonhos, Rivanilson Brito Carneiro, 47 anos. Na função de feirante, “Capim”, como Rivanilson é conhecido, trabalha há um ano; e segue uma agenda semanal de feiras bastante movimentada na região, porém, o ritmo de trabalho diminuiu depois do coronavírus.

"Eu deixei de ir pra Cafarnaum, por causa da pandemia", diz Rivanilson/Imagem: Sirlene Santos

“Antes dessa feira aqui [do Ouricuri II], eu vendia em Cafarnaum, Queimada Nova, Velame, lá no Sem Terra, tudo eu andava vendendo. Eu deixei de ir pra Cafarnaum, por causa da pandemia. É melhor ficar aqui mesmo na região”, explica Capim, que torce para que a Feira da Agricultura Familiar e Economia Solidária de Ouricuri II dê certo.


“Esse projeto é muito bom. É um trabalho que serve para todos. Pra gente não precisar sair pra vender fora, pro dinheiro circular aqui mesmo na região da gente”, conclui o feirante.


Opinião via zap


Não é só Rivanilson que aposta todas as fichas nesse projeto, não. Dona Jailma, da Lagoa do Cazuza, também está muito empolgada com a novidade. “Com fé em Deus, nós vamos ter essa feirinha para sempre”, enviou áudio via aplicativo de mensagem.


No grupo de WhatsApp, intitulado de “Organização da Feira”, muitas mensagens parabenizando a iniciativa da economia solidária local foram trocadas. “Eu achei o que eu fui procurar. Foi a primeira e estava top; top mesmo”, disse o consumidor Edivaldo, da comunidade quilombola de Queimada Nova, que também parabenizou a organização: “parabéns para todos que organizaram aí, associações, presidentes de associações, barraquistas, as mulheres. Eu creio que vai se organizar cada vez mais e vai dar tudo certo”, encaminhou mensagem no grupo do zap.


“Pois, agora, cada vez mais vai ficar melhor ainda, espero que não acabe. Espero que essa pandemia passe, e que a feirinha continue. Hoje, eu fui lá, amei, gostei demais”, respondeu Valdiene, da comunidade de Boa Vista.

O distanciamento é de dois metros entre as barracas/Imagem: Sirlene Santos

Com 43 membros no grupo “Organização da Feira”, todos os participantes são da região do “sertão”. Depois do primeiro dia da feira de Ouricuri II, a reportagem teve acesso às opiniões compartilhadas pelos participantes no grupo, assim como o Repare Quilombo também teve autorização para divulgar trechos do diálogo.


“As feiras livres são eficientes e beneficiam os agricultores familiares”


Barraca da Associação Quilombola de Queimada Nova/Imagem: Eliana Neri

Além da relação de troca de mercadoria, os espaços das feiras livres estabelecem relação de afetividade e de resistência. Dessa forma, Zene Vieira, 40 anos, engenheira agrônoma, caracteriza a feira como “alternativa viável para manter a renda das famílias”, conta, ainda mais em tempos de coronavírus já que, ainda de acordo com ela, “agricultores não pararam a produção de alimentos em meio à pandemia”, afirma.


Zene Vieira, 40 anos, engenheira agrônoma/Imagem: Arquivo Pessoal

Conforme Zene, frutas e hortaliças são os principais produtos comercializados da agricultura familiar, no município de Morro do Chapéu. Neste sentido, ela acredita que projetos voltados à produção agroecológica com certificação e assessoria técnica especializada, dariam um melhor suporte para o refinamento e escoamento da produção local.



_ Nathan Rocha é repórter do Repare Quilombo.

_ Sirlene Santos colaborou nesta reportagem.


Confira mais imagens da Feira de Ouricuri II




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