• Repare Quilombo

Artigo: Ancestralidade e a difícil arte de resistir

Por Lalinha


Dona Nena, mulher negra, analfabeta, benzedeira de fé e devoção/Imagem: TV Chapada

Nossos antepassados foram submetidos a um trato miserável, violento, desumano ainda na sua vinda da África para cá. Tirados forçosamente de sua terra natal, onde cultivavam costumes, tradições, religiões, culinária e mais uma infinidade de coisas, num universo que era deles. Esse era só o início desta triste trajetória.


Nos navios negreiros, acorrentados uns aos outros para que dificultasse uma provável fuga.


Como se isso fosse possível em alto-mar. Amontoados feito animais, no sacolejar do navio eram arremessados uns contra outros. Água e alimento escassos, numa viagem que durava dias, meses. Muitos não suportavam os maus tratos e acabavam morrendo, estes por sua vez eram lançados ao mar, ficando pelo caminho de uma longa viagem, cujo trajeto e destino eram carregados de tristezas e incertezas.


Conceição Evaristo, no conto Olhos D'água, nos faz relembrar de como nossos ascendentes sofreram para resistir e se manterem vivos e da importância de honrá-los: “Eu entoava cantos de louvor a todos os nossos ancestrais, que desde a África vinham arando a terra da vida, com suas próprias MÃOS, PALAVRAS E SANGUE”.


Os que conseguiam sobreviver aos horrores da travessia, ao chegarem em seus destinos eram separados por lotes, sem ser levado em consideração região de origem, visto que vinham de diversas partes da África, parentescos, se era pai, mãe, filhos, isso pouco importava.


Para o homem branco, o negro era insensível a sentimentos.


Dali partiam para as lavouras, onde sua mão de obra era explorada, na casa grande era obrigado a satisfazer os desejos e vontades do seu senhor e da sinhazinha. Com suas vidas anuladas compulsoriamente, seguiam submissos, mas jamais abandonaram seus costumes e sua religião. Mas foi nos quilombos que sentiram donos de si mesmos.


Hoje, partindo do território ancestral de resistência, a Comunidade Quilombola de Velame, conto-lhes um pouco sobre a trajetória de vida da dona Nena, mulher negra, analfabeta, benzedeira de fé e devoção, de olhar fraterno. No corpo, as cicatrizes das crueldades sofridas, na imperfeição de alguns dedos das mãos, na sua corcunda responsável por transportar quilômetros feito burro de carga, carotes e mais carotes com água, clara a judiação. Ainda jovem perdeu seus pais, o sr. Bertulino e dona Filismina. Pouco falava das cicatrizes físicas e emocionais que carregara a vida inteira, de suas dores e angústias, pouco se lamentava. Jamais dividiu abertamente às tristezas vividas.


Com ela a dor da rejeição de seu Papai, como era carinhosamente por ela chamado, por ter sido desonrada e tornar-se mãe solteira. A cultura patriarcal e sexista dominante, a visão da mulher negra hipersexualizada, enojadamente conhecida por nós, fez parte da vida de dona Nena. Muitos motivos teriam para indicar um culpado, e vitimar-se.


Mas como essa mulher desprovida de vez, fala, transformou seu corpo tão franzino e judiado em instrumento de luta, assumindo a narrativa de sua história, da Comunidade Quilombola de Velame, deixando um legado de resistência, representatividade e identidade?


A princípio teve o apoio de seu irmão Genésio, a acolheu, ela e sua filha fruto da tal desonra. Durante sua vida não cansara de repetir: “Ai de mim, se não fosse Genésio”! Em contrapartida ajudou seu irmão a cuidar dos nove filhos que tinha: Nilza, Cidália, Delzani, Iraci, Eduvirgens, Ana Célia, Filemon, Dezinho e Zeca. Tempos difíceis, o trabalho na lavoura era responsável pelo alimento e sustento da casa. Com dedicação, ensinamentos, carinho e algumas palmadas moldou-os, ajudando cada um dos citados a serem pessoas de bem. Ele partiu antes dela, mas deixou em seu coração a eterna gratidão pelo apoio dado. Tanto que, muitos anos depois ainda no leito de sua morte, dona Nena clamava incansavelmente por Genésio, o fiel irmão que não abandonara.


Ela seguiu desbravando caminhos, principal responsável pelas manifestações culturais existentes na Comunidade, tinha na religiosidade um apego admirável. Mesmo com o avanço da medicina, com suas “técnicas medicinais”, contra “ mau-olhado, quebranto”, diarreia, dor de cabeça, “vento caído” (o que tinha de criança esperneando nesta hora...), benzedeira de mão cheia, conquistou gerações. Gêmeas (se foi uma honra conviver com uma Dona, imaginem duas!), mesmo com a morte de sua irmã ainda jovem, ela seguiu fazendo os Carurus, em reverência a São Cosme e Damião. Além dos ritos religiosos, ao longo de sua existência lutou com perseverança pela proteção e promoção de saberes e manifestações culturais que mistura expressões musical, festiva, coreográfica e também poética, oriundos de seus antepassados. Ela conseguiu enraizar essas tradições, que se mantém vivas até hoje.


É sabido que somos frutos de um processo histórico de exploração, e os efeitos maléficos da escravidão, tais como racismo, discriminação, exclusão, fazem parte do nosso dia a dia. Relatar a dor e sofrimento passados pelos nossos ancestrais, assim como suas conquistas e legados, nos fazem perceber que eles deixaram de lado os dissabores sofridos e realizaram com maestria a difícil arte de resistir.


Você enquanto negro (a), quilombola, o que tem feito para honrar os seus, mantendo vivos seus legados, que construíram com coragem e resistência?


Independente de sua resposta, eu te faço um convite:


Assim como dona Nena, sigamos com força suficiente para mantermo-nos vivos e perpetuar nossa história!


_Cristenilde Brito (Lalinha) é colunista do Repare Quilombo.

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