• Repare Quilombo

Artigo: Aquilombamentos

Por Gildeci de Oliveira Leite


Quilombo de BarraII/Imagem: Projeto Multimãos

No Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa de Antônio Geraldo da Cunha, a palavra quilombo é definida como “valhacouto de escravos fugidos”. Evidente, que para uma proposta de correção do verbete, sugeriríamos a substituição da palavra “escravos” por pessoas escravizadas, afinal nenhum ser humano nasce escravo, torna-se escravizado. A acepção da palavra quilombo de forma genérica pode ser entendida como comunidade, refúgio, lugar seguro para escravizados, que conquistaram suas liberdades, afinal valhacouto é refúgio, abrigo.


Apesar de tratar-se de um dicionário da língua portuguesa, quilombo é uma palavra africana de origem quimbundo. O quimbundo é uma das línguas angolanas da grande família linguística banto e uma das línguas africanas mais importantes no Brasil, daí, então, uma das explicações para a presença da lexia em quimbundo em nosso vocabulário. Como a língua e a cultura estão em constante movimento, será fácil entender o quanto as mudanças e alterações no sentido da palavra quilombo se relacionam diretamente com as transformações de nossa sociedade.


Em sua maioria, os espaços físicos dos antigos quilombos eram situados em territórios rurais de difícil acesso, escondidos das perseguições dos exércitos da coroa e até dos exércitos particulares de senhores de engenho, não raro, compostos, também, por capitães do mato, homens negros. Tive a oportunidade de visitar o Quilombo dos Palmares há alguns anos e posso afirmar, que ainda se trata de um local, estrategicamente escondido na zona rural e com mirantes espalhados para avistar os invasores. Mesmo os quilombos urbanos tiveram a correta preocupação em se ocultarem.


Hoje, é comum ouvirmos falar em quilombismo, em aquilombar-se. Com inspirações na secular luta negra, a partir da palavra quilombo gerou-se derivações para representar, descrever e conceituar possibilidades de subsistência. Entre os artistas e intelectuais negros brasileiros, que ampliaram a palavra quilombo, podemos citar Abdias do Nascimento e Conceição Evaristo. Abdias do Nascimento nos deixou em maio de 2011. O militante negro foi ator, poeta, escritor, dramaturgo e professor universitário. Pesquisadores indicam o sentido do termo quilombo para Abdias do Nascimento como a possibilidade de emancipação do povo negro, construindo um espaço de autonomia, direito à diferença, resistência, revolta e combate ao racismo. Sim, quilombo é tudo isso, significa o direito à liberdade. O quilombo inspira todos os desejos de independência, difundidos pelas mais diversas vertentes da luta negra.


Já a escritora Maria da Conceição Evaristo de Brito é mineira e agora em novembro de 2020 completará 74 anos de idade. Ela em suas poesias e narrativas propõe o aquilombamento, a união para responder ao racismo e criar possibilidades de melhoria da vida do povo negro. Aquilombar-se é acima de tudo perceber, que a luta coletiva deve ser a pauta vigente para a conquista de dias melhores. Entendo que o quilombismo e o aquilombamento não podem nos privar da necessária construção de alianças com pessoas das mais diversas identidades, ampliando o raio de ação da cultura negra, encantando o outro, conquistando o direito à igualdade. Gosto de lembrar a atriz, poeta, cantora, jornalista Elisa Lucinda ao dizer que não quer um mundo dominado por negros, ela diz que anseia um mundo compartilhado.


Ao declarar o desejo de um mundo compartilhado, entendemos que o sentido de aquilombamento de Elisa Lucinda e nosso deve ser inclusivo, na eterna busca por igualdade, nunca pela formação de um novo opressor. Sendo assim, sugiro o fortalecimento de todos os quilombos com o viés da pluralidade e da luta justa e harmônica. Repare como o seu, o nosso quilombo é importante e repare, reparemos juntos, todos os quilombos sedentos por liberdade, igualdade e fraternidade.


* Gildeci de Oliveira Leite é professor da UNEB e colunista do Repare Quilombo

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