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Artigo: Caruru, vatapá, galinha caipira, balas e os dois irmãos

Atualizado: 22 de Set de 2020

Por Nathan Rocha

Mesa do caruru de Cosme e Damião no Terreiro de Umbanda Mensageiro dos Ventos, em 2018. Morro do Chapéu - Bahia/Foto: Iago Aquino

Meninos e meninas com até sete anos de idade, considerados imaculados pelos religiosos, comem o caruru com as próprias mãos, sentadas ao redor de uma esteira feita de palha de licuri, no chão. Enquanto comem para ganhar balas e outros docinhos, são embalados pelo ritmo do atabaque ritmado com as palmas e vozes dos adultos, de pé, ao redor.


O caruru é completo; feito com quiabo. O prato também leva vatapá, arroz, galinha caipira, farofa, repolho e salada. A festa tradicional em homenagem a São Cosme e São Damião é uma mistura de comunhão e cultura.


As cantigas ou pontos cantados ou batuques, como são chamadas as músicas pelos umbandistas de Morro do Chapéu, na Chapada Diamantina, se parecem com samba de roda. E, cantados, por todos, aceleram o ritmo cardíaco dos presentes, faz arrepiar; emociona. Trechos das letras como “Cosme e Damião, o que é que veio fazer?”, perguntados pelos homens, são logo complementados, ou melhor, respondidos pelas mulheres, que, envolvidas na egrégora do ritual e revigoradas pela fumaça do defumador, respondem: “Comer carne de galinha com azeite de dendê”.


Cosme e Damião são santos católicos e, que, sincretizados, representam os espíritos dos dois irmãos gêmeos da umbanda. A festa, que acontece uma vez por ano, sempre no dia 17 de setembro, no Terreiro de Umbanda Mensageiro dos Ventos (TUMV), localizado no bairro Alto da Chapada, recebe dezenas de pessoas, adultas e crianças, umbandistas e católicas. A fé se mistura, o respeito prevalece e a alegria contagia na inocência de dois, dois.


Assentamento de Cosme, Damião, Ogum Criança, Iansã e Iemanjá na casa de Geovânia de Oyá/Foto: Iago Aquino

As vestimentas das crianças são coloridas, e muitas delas nem são umbandistas. Algumas, quando se recusam a sentar à “mesa”, com calundu, muitas vezes por vergonha, logo são substituídas por outras que são convidadas, ali mesmo no momento. Dizem os mais velhos que caruru de Cosme e Damião sempre é assim, ora falta menino, ora sobra, numa traquinagem só, mas que, no final, tudo dá certo e acaba em festa.


As pessoas adultas umbandistas usam branco, exceto a dona da “obrigação”. Aquela que oferece o caruru prefere se vestir com a roupa de cor do seu Orixá de cabeça. Neste caruru, por exemplo, oferecido pela filha de Iansã, Geovânia de Oyá, o amarelo e o vermelho logo sobressaem o branco do restante da vestimenta.


Depois de quase uma hora de comilança, com mãos, rostos e, às vezes, até os cabelos melados, é hora de lavar as mãos. Como o couro do atabaque não para de soar, os adultos já agoniados, com fome, puxam o penúltimo ponto antes de levantar a mesa. “Quem comeu caruru vai lavar as mãos, todo mundo comeu, só eu não”. A letra do batuque, que parece mais uma indireta para os donos do terreiro, logo é entendida por eles, que começam a colocar o caruru nos pratos para servir as outras crianças que não participam da mesa e também aos adultos.


A bacia para lavar as mãos dos setes inocentes é passada por cada uma das crianças. Outra pessoa já passa em seguida com a toalha, enxugando as mãos. Seguindo, o sacerdote e dirigente espiritual da casa passa benzendo e levantando as crianças. Depois, mais duas mulheres umbandistas juntamente com a religiosa responsável pelo caruru passam recolhendo os pratos, copos, a imagem de Cosme e Damião, as velas e a esteira. Na sequência, a mesa é levantada.


Finalmente, as balas são distribuídas em par para as crianças, e os adultos, autorizados, saciam-se com caruru, vatapá, galinha caipira e com duas balinhas para adoçar a vida.


Viva Cosme e Damião!

Salve Dois, Dois!


_Nathan Rocha é repórter do Repare Quilombo.

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