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Artigo: E se amanhã eu for vítima de uma “abordagem desastrosa”?

Atualizado: 17 de Dez de 2020

Por Gabriel Oliveira


Imagem meramente ilustrativa

A primeira abordagem que sofri foi quando morava em Salvador, há uns quatros anos. Era começo do dia, na rua de casa, local onde todos me conheciam; estava eu saindo de casa para faculdade, quando dois carros da PM me convidaram para uma realidade que até então eu não tinha noção que estava tão inserido. Então, ali, pensei: “é, eu sou o alvo”.


Algumas coisas me chamaram atenção naquela abordagem. A primeira, por ordem, foi à forma truculenta que chegaram até a mim. Eles me prensaram na parede, falaram algumas coisas desagradáveis e apontaram dezenas de armas na minha direção. Ali, me senti um objeto em iminência de ser quebrado em posse dos marchantes da rispidez.


A segunda foi a justificativa da abordagem. Revistaram tudo, pegaram minha mochila, jogaram meus materiais da faculdade no chão e viram que não tinha nada que justificasse a violência que estavam me submetendo. No final do ato, um único agente, dos mais de dez reunidos, solta as seguintes palavras: “Recebemos uma denuncia de roubo e sua atitude foi suspeita”.


A terceira questão para mim foi a mais dolorosa. Alguns vizinhos viram tudo aquilo e ficaram calados. Os mesmos vizinhos que acompanhavam minha rotina de faculdade e estágio, que me viam sair cedo e chegar tarde da noite em casa, todos ficaram calados.


Nos dias seguintes tive um bloqueio emocional. Dificuldade em sair de casa para estudar e trabalhar, medo de qualquer viatura da PM que passava perto ou longe de mim. Acho que pela primeira vez eu senti o racismo operando na minha vida das múltiplas formas que ele se instala.


Hoje, 16 de dezembro de 2020, eu estou vivo para falar desse episódio, mas tenho ciência de que a todo instante corro o risco de ser vítima de mais uma abordagem desastrosa.


Vítima assim como foram Edson Arguinez Junior, 20 anos, e Jordan Luiz Natividade, 18 anos, ambos de Belford Roxo, município do Rio de Janeiro. Edson e Jordan foram encontrados mortos e com sinais de tortura após uma abordagem policial no município de Belford Roxo. O vídeo divulgado pelo Fantástico do último domingo dia 13, mostra um policial atirando em direção aos dois jovens que passavam de moto, logo em seguida, Edson e Jordan caem no chão, sendo chutados por outro agente. Os dois foram encontrados mortos minutos depois num local distante da abordagem policial.


O Porta Voz da PM classificou a abordagem como “desastrosa”.


Abordagens desastrosas são rotina na vida da população negra no Brasil. A taxa de homicídios de pessoas negras cresceu 11,5% de 2008 a 2018. Um salto de 34 para 37,8 mortes por 100 mil habitantes segundo o Atlas da Violência 2020, um estudo realizado em parceria com o Instituto de Economia Aplicada (IPEA) e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).


O mesmo estudo registrou uma diminuição no número de mortes de pessoas não negras, que de 15,9 caiu para 13,9 mortes para cada grupo de 100 mil habitantes.


Em 2015, houve a devastadora chacina de Costa Barros. Roberto, 16 anos, Carlos Eduardo, 16, Cleiton, 18, Wilton, 20, e Wesley, 25 anos, eram amigos e moradores do Morro da Lagartixa, localizado em Costa Barros, bairro do Rio de Janeiro. Os cinco amigos saíram para comemorar o primeiro salário de Roberto. Passaram o dia comemorando, e na volta para casa tiveram suas vidas interrompidas por 111 tiros disparados por policiais em mais uma abordagem desastrosa. No fatídico dia os policias estavam à procura de assaltantes que teriam roubado um caminhão. E eles só tinham uma pista: os responsáveis estavam num carro e uma motocicleta.


A perícia constatou que não existiam armas no carro, desmentindo a versão apresentada pelos agentes. Houve, então, a comprovação do crime de fraude processual, os policiais modificaram a cena do crime.

Os policias foram condenados e expulsos da corporação depois de muita luta das famílias vitimadas. Hoje, a família de Roberto ainda chora sua morte, como chora também a de dona Jozelita de Souza, mãe de Roberto, que meses depois da morte do filho, também faleceu. O diagnóstico foi de pneumonia e anemia, mas morreu por conseqüência do racismo estrutural que matou seu filho.


Jovens negros seguem diariamente sendo exterminados por abordagens desastrosas, intervenções desastrosas, políticas de segurança desastrosas em todo o país.


Edson, Jordan, Roberto, Carlos Eduardo, Cleiton, Wilton e Wesley não puderam se despedir, não puderam dar um abraço ou deixar uma carta para seus familiares.


Por isso, aqui, escrevo. Se eu, jovem negro quilombola, como pertencente de um grupo que desde o período colonial é violentado e exterminado, for vítima amanhã de uma abordagem desastrosa, quero pedir ao meu pai, um homem negro do quilombo, que sempre lutou por dignidade aos nossos povos, que continue lutando com toda a sua força. Quero que ele transforme o luto em luta e siga buscando justiça e igualdade. Quero que todos os meus familiares se fortaleçam e abracem a causa antirracista. Quero que meus amigos brancos lutem e usem seus privilégios para que os meus tenham dignidade até na hora da dor. Pois até o direito de chorar nossas dores é arrancado do âmago de cada família negra.


E se amanhã eu for vítima de uma abordagem desastrosa, por favor, não esqueçam meu nome, não esqueçam minha história, não normalizem o extermínio de jovens negros.


Gabriel Oliveira é advogado e colunista do Repare Quilombo.



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