• Repare Quilombo

Artigo: O machado de Xangô e o terrível Governo do Brasil

Por Gildeci Leite

Representação do orixá Xangô/Imagem meramente ilustrativa, retirada do site https://ceuestrelaguia.org.br em 07 de junho de 2021

Analistas de plantão nas redes sociais têm se posicionado contra e a favor da retirada do Oxê ou Machado de Xangô do símbolo da Fundação Cultural Palmares (FCP). Talvez com a maior parte do tempo comprimido em minha bolha, eu tenha percebido mais manifestações de revolta contra mais essa desqualificação de simbologias negras. O argumento do presidente da FCP pauta-se na laicidade do estado, portanto justifica assim a retirada da representação do senhor da justiça, rei de Oyó. Ele disse que o Estado é laico!


Esse governo é laico?


Permito-me perguntar se esse compromisso com a laicidade seria característica irrefutável do governo ao qual o presidente da FCP serve. Vejamos! Uma ministra desse mesmo governo declarou-se “terrivelmente evangélica” em momento solene. O lamentável Presidente da República afirmou em 2019, que indicaria ao menos um ministro ao STF (Supremo Tribunal Federal) “terrivelmente evangélico” e que esse espírito deveria estar presente em todos os poderes. A julgar pelas ações deste governo, desconfio da existência de algum compromisso com a laicidade, pois ao contrário, conforme eles mesmos dizem, o governo é dirigido com pensamento “terrivelmente evangélico”.


Não vejo mal algum em termos representantes evangélicos, entretanto bastante assustador, antidemocrático e prejudicial quando qualquer gestão em quaisquer esferas dos três poderes é ocupada por pensamento “terrivelmente evangélico”. Todo e quaisquer dicionários de língua portuguesa trará a definição de terrível como algo ou alguém que causa terror, que assusta e é temido. Deveríamos mesmo temer nossos representantes ou o ideal seria termos neles a certeza da condução do poder de forma justa, plural, democrática? Estaria a presidência da FCP em consonância com o espírito “terrivelmente evangélico”, conforme mandamento do chefe da nação?


Ao menos uma coisa podemos afirmar, não há laicidade no slogan da terrível campanha eleitoral do atual mandatário da nação. Portanto, tendo a prática como critério da verdade, podemos afirmar que a laicidade não participa de diversas ações governamentais. Provavelmente, para membros deste governo, ser laico é o mesmo que ser fundamentalista, em especial perseguir representações e religiosidades negras. Quanto à retirada do Machado de Xangô do símbolo da FCP, tenho plena certeza que a melhor resposta virá do próprio Xangô. Xangô fala pelo céu, todos ouvem! O senhor do fogo trará de volta nossos dias agradáveis, benéficos, bondosos, brilhantes, charmosos, divinos, doces, esplendidos, excelentes, fantásticos, humanos, legais, cheirando a alfazema, untados de bastante dendê, alegria e diversidade, tudo, tudinho mesmo ao contrário de terrível.


Kaô Kabecilê! Axé!


_Texto publicado originalmente no jornal A Tarde, no último dia 06 de junho de 2021, p. A2.

_Gildeci Leite é professor da UNEB e colunista do Repare Quilombo.

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