• Repare Quilombo

Artigo: Resistir tem sido a lei da nossa cor

Por Lúcia Fabiana da Silva


Lara Rayane dos Santos Oliveira, 18 anos, passou em engenharia agronômica no vestibular 2020 da UNEB/Imagem: Sirlene Santos

O ano era 2004.


Eu tinha 17 anos, e era lavadeira; mais uma mulher negra lavadeira nesse Brasil, no interior da Bahia, em Jacobina. Lembro-me ainda com muito entusiasmo do dia em que um jornal impresso de circulação estadual, publicara o resultado do vestibular 2005 da UNEB. Eu estava lavando roupas na casa da patroa, quando recebi o telefonema de minha irmã. A euforia foi tamanha! Para famílias negras e periféricas como a minha, formadas por uma mãe solo e duas filhas, essa é uma conquista inenarrável. Foi a abertura de um caminho cheio de novidades; de conhecimentos; de uma nova família de amigas/os que a universidade nos traz e da rebeldia mais repelida pela estrutura racista e sexista da sociedade brasileira.


Ingressar na universidade simbolizava romper com o lugar projetado para mulheres negras e, consequentemente pobres como eu, mas significava também acessar um mundo totalmente distante e desconhecido, até então. A Ciência geográfica, curso de licenciatura que eu fiz, se apresentara para mim, por dois longos semestres, como um grande labirinto de palavras, terminologias, formatações acadêmicas de uma ABNT, que nada conversava comigo, mas que eu precisava desbravar.


Superadas e ressignificadas, essas lembranças me ajudam, hoje, a refletir e dividir com as/os leitoras/es do Repare Quilombo as reflexões a seguir, acerca do processo de escolarização (não) oferecida pelo sistema educacional brasileiro a estudantes negras, negros e quilombolas:


Segundo dados (defasados, diga-se de passagem) do Ministério da Educação (MEC) sobre a educação quilombola, aproximadamente 151 mil estudantes estão matriculadas/os em 1.253 escolas públicas em todo país. Essas crianças, adolescentes e adultas/os viajam em condições, muitas vezes, precárias para essas escolas, que ficam, geralmente, bem distantes de suas residências. Até aí, podemos entender as forças ancestrais que os movem para fazerem valer o direito constitucional de acesso à educação, no Brasil. O transporte escolar, que por vezes falha, ou as más condições que são oferecidas coadunam com as orientações de Nilma Lino Gomes para a atenção constante à cordialidade duvidosa da sociedade brasileira, como estratégia de superação das questões raciais.


Percebam como tudo conspira para que crianças quilombolas desistam, cansem, se afastem e tenham rendimentos ruins na escola. É o que podemos especificar como racismo institucional. As forças que deveriam cuidar em prover o direito à educação de crianças brasileiras de forma equitativa, o negam de maneira subliminar.


Como se já não bastasse a dificuldade para chegarem até a escola, lá, encontram pessoas de diferentes idades e papéis que perpetuam comportamentos racistas, zombam de comunidades quilombolas e estudantes negras e negros sem sequer perceberem o espelho diante de si. É o racismo que marca alunas e alunos nos índices de baixa escolaridade.


O que você leitora/leitor, vê de vitimismo no cotidiano de estudantes quilombolas?



Eu só vejo força. Todos os ângulos me remetem a uma admiração pelas batalhas diárias, e dividi-las me motiva, todos os dias, ser a melhor professora que possam ter, para que não desistam, que encontrem em sua ancestralidade e na nossa história, por vezes de muita dor, a coragem necessária para seguirem.


Comprovante de matrícula da universitária Lara Rayane/Imagem: Arquivo Pessoal

Recentemente, o último resultado do vestibular da UNEB me fez sentir a mesma alegria de outrora, uma vibração ancestral, ao saber da aprovação de dois estudantes que acompanhei nessa jornada fascinante que a Geografia me proporciona, em sala de aula, através da educação. Na cidade de Morro do Chapéu, Lara Rayane, estudante da comunidade quilombola de Queimada Nova, e Ariel, natural da zona rural de Cachoeira de Domingos Lopes, foram aprovados em engenharia agronômica e licenciatura em geografia, respectivamente, na UNEB de Barreiras e Jacobina.

Participar do processo de seleção e vibrar com ela e ele o resultado positivo foi reviver o período da graduação, bem como temer todas as intempéries que cercarão a vida desses futuros universitários, já que essa aprovação representa apenas o início de uma grande batalha. “Passou! Agora é luta!”, já dizia o estudante Tuxá, Brendo Neves, aprovado pelas cotas para população indígena, que conheci numa das muitas dessas experiências de compartilhamento de caminhadas.


As pesquisas mostram que a chegada de estudantes negras, negros, indígenas e quilombolas ao Ensino Superior tem sido uma constante. No entanto, na universidade, quase nada é diferente do que já foi exposto e ainda altera, porque ela não se apresenta com o mesmo afago, aquele que nós, professoras negras, oferecemos aos nossos iguais, nas escolas de Ensino Básico. A distância de casa aumenta; os conhecimentos necessários para acessar os espaços e as oportunidades no seu centro parecem inacessíveis, informações são apresentadas em códigos e editais, expostos em murais com termos e prazos que fogem do nosso entendimento.

Em contrapartida a essa política de exclusão, as organizações e movimentos negros, em todo o país, têm lutado para imputar o Estado a garantir, não só a entrada da estudante e do estudante quilombola à universidade, mas também a sua permanência, porque essa sim é que garantirá que o acesso ao conhecimento não se torne um mero dado, mas que signifique a emancipação desse grupo majoritário adjetivado de minorias.


Existe uma prece, uma máxima ecoada de nossos corpos negros, sintetizada pelo psiquiatra Frantz Fanon: “Ó meu corpo, faça sempre de mim um homem que questiona!” É assim que seguimos, como se essa máxima tivesse impregnada em nossa tez, o que não nos permite titubear, na certeza de que ainda há um longo caminho a enfrentar e conscientes de que resistir tem sido a lei da nossa cor há mais de trezentos anos.



* Lúcia Fabiana da Silva é professora substituta da Univasf e colunista do Repare Quilombo.

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