• Repare Quilombo

Artigo: Tire o racismo do seu vocabulário

Por Lúcia Fabiana da Silva

Foto/Lúcia Fabiana

Todas as vezes que sou interpelada a escrita, esse exercício de traduzir em palavras de uma língua que nos foi imposta pelo opressor, pelo colonizador, em detrimento das nossas línguas ameríndias e da diáspora africana, estas palavras perpassam a mulher negra que sou e das singularidades que nos irmana como comunidade negra.


Pois bem, todas e todos sabemos como a linguagem é potente, e esta, que sendo a miscelânea brasileira de todas as configurações que constroem a nossa HISTÓRIA NEGRA, indígena e europeia de vários povos, foi rendida em assalto a mão armada e chicotes cortantes a mais inescrupulosa face desta língua portuguesa, que não cessa em se mostrar preconceituosa, discriminatória, racista, classista e latifundiária e monárquica. E mesmo que sinuosamente ela queira parecer, habitual, de repente, desprovida de intenções ruins ou meticulosas. Não há como fugir, a força da palavra é intensa, e mesmo que o emissor queira disfarçar sua real intenção ao proferir, ela, a palavra, acaba falando por si e melhor revelando o que somos. É assim comigo e meu povo de HISTÓRIA NEGRA, é assim também com o branco e sua história branca...

Pois bem, não é de hoje que nós lutamos para que esta palavra reconheça o perigo dos seus sons que são tão cortantes quanto os chicotes de açoite que um dia dilaceraram nossos ancestrais.

Não é de hoje que tentamos apresentar um pouco de civilidade a estas pessoas. Se vocês estão cansados de nos ouvir replicar a forma correta de se tratar seres humanos, imagina, como nos sentimos, todo momento retornar para esse discurso de nossa HISTÓRIA NEGRA de luta, resistência e vitórias. Nossa sim! Sem nenhuma benevolência do opressor. - Ou não vai me dizer que você ainda acredita na Isabel do 13 de maio?!

Não é de hoje que Margareth Menezes diz que “Zumbi é santo sim” mesmo que a branquitude quisesse esconder a verdadeira HISTÓRIA NEGRA de heroísmo que ele e todo o quilombismo de Palmares ensinaram a essa tal nação miscigenada, do que vem a ser sustentabilidade.


Não é de hoje que Lélia Gonzalez com seu preteguês diz, não dá mais pra aceitar falarem de nós, sem nós, por que essa palavra, somente a nós, cabe, a HISTÓRIA NEGRA, é nossa, e não admitimos mais que ninguém desintegre seu significado e sua cosmogonia a troco de trocadilhos infames ou força de expressão, quando nem sequer de força, entende. Você me entende?


Não é de hoje que, como diz Grada Kilomba “falamos pelas frestas da máscara de flandre”, que mesmo a história branca, devendo ter vergonha de tê-la criado, insistem em tentar amarrar ao nosso pescoço, com seus métodos vis.


Não é de hoje que Abdias do Nascimento, mostra a necessidade de romper, não só com as estátuas que perpetuam as histórias brancas de escravagistas e assassinos de nossas e nossos Irmãs/irmãos, como fez o Duque de Caxias, - é esse mesmo! - O celebrado patrono do exército, herói soberano do presidente da República desse país, que tem esse título pela defesa incansável desse território, dos revoltosos Quilombolas, que ao serem capturados, tinham suas cabeças arrancadas e expostas em praças públicas.


Assim como Abdias nos ensinou a extirpar esses criminosos do nosso rol de heróis da nação, Vilma Reis, Carla Akotire, Silvio de Almeida, Sueli Carneiro, Maria de Nazaré da Mota Lima, e tantas/tantos negras/negros, hoje, nos mostram a necessidade de enxergar a nossa HISTÓRIA NEGRA atual, a capacidade que adquirimos de confrontar a necropolítica, o racismo, com a nossa capacidade ancestralmente constituída de ser comunidade, de ser de verdade e revolução sempre...


Nas comunidades africanas, em sua maioria de histórico e atualmente negra, a palavra, é ouro, ouro mesmo, como o que a história branca mesmo admite ter roubado de nós, por isso mesmo a confiança nos griots, de traduzir e passar adiante os conhecimentos dos antepassados. Isso é filosófico e verdadeiro, a palavra não mente, mesmo que essa seja a intencionalidade do emissor, ela consegue ser mais forte, compreendam!


O bom, é que a palavra, é uma construção histórica, e no caso específico dessa história, pode a partir de agora sim, ser negra... As eleitoras e os eleitores negras/negros, dirão.


Fonte: ICBA, Intercâmbio Cultural Brasil/África

_ Lúcia Fabiana da Silva é professora substituta da Univasf e colunista do Repare Quilombo.

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