• Repare Quilombo

Entrevista: “Assumi com coragem, determinação e deu certo”

Dona Lili, a primeira mulher presidente da Associação de Produtores Remanescentes de Quilombo de Queimada Nova, lida até hoje com o machismo.


Por Sirlene Santos

Maria Jesus dos Santos Macedo, 57 anos, primeira mulher a assumir a presidência da Associação de Queimada Nova/Imagem: Sirlene Santos

“O nosso trilho é esse: fazer com amor, com carinho e otimismo”, diz dona Lili, presidente da Associação de Produtores Remanescentes de Quilombo de Queimada Nova. Já o trilho do Repare Quilombo é sempre o de “volta para casa”. A nossa equipe de reportagem viajou 56 km da sede do município de Morro do Chapéu até a comunidade quilombola de Queimada Nova, numa região conhecida como “sertão”, ao oeste da sede, já na divisa com América Dourada, para entrevistar Maria Jesus dos Santos Macedo, a dona Lili, como é conhecida popularmente.


Dona Lili é moradora do Quilombo de Queimada Nova ou Queimada de Durval, como o povoado é lembrado pelos moradores (as) mais velhos (as). Agente de saúde da localidade, dona Lili, divide o seu tempo, entre outras tarefas, com a labuta da associação. Em sua casa, a entrevista aconteceu numa tarde nublada de sábado.


De forma bem simples, nesta entrevista, ela fala sobre as experiências e projetos da associação, sobre a precariedade das políticas públicas do governo federal voltadas para o associativismo quilombola e também sobre a sua participação à frente dos trabalhos da associação.


Queimada Nova foi reconhecida como comunidade quilombola em 2008, porém, a Associação de Produtores Remanescentes de Quilombo de Queimada Nova funciona, desde agosto de 1985. Atualmente, conforme dona Lili, a associação tem 66 pessoas associadas. Desse total, 25 sócios, aproximadamente, são jovens.


Confira abaixo a entrevista.


"Antes, era uma cara, depois de ser reconhecida como quilombo, é outra história", conta dona Lili/Imagem: Sirlene Santos

Existe uma comunidade de Queimada Nova antes do reconhecimento quilombola em 2008, e outra depois? Neste sentido, como se dá a convivência das pessoas no povoado em relação aos projetos, conquistas e experiências relacionadas ao associativismo comunitário?


A gente não era reconhecida. Antes, era uma cara, depois de ser reconhecida como quilombo, é outra história. A gente tem mais oportunidade desse reconhecimento. E mudou bastante. Muito mais acesso às políticas públicas, os editais antes mesmo, a gente não tinha acesso. Agora, nós temos esse direito e essa liberdade. A cara da comunidade é outra. A diferença é grande, porque cada dia que passa, cada ano a gente vai aprendendo, é um aprendizado. E as coisas sempre melhorando. As mudanças sempre vêm. Mudança pra melhor. Essa convivência é bastante equilibrada, mesmo com toda idade, mas o equilíbrio é bom, porque é assim: a cada dia passa, o povo vai aprendendo mais, vai compreendendo, vai vendo os valores. A comunidade teve os seus avanços, muito avanço com os projetos da associação. Quando a associação é contemplada com os projetos, os recursos ficam na própria comunidade, né, gera emprego pra bastante gente da comunidade, então, isso só tem a melhorar.


O que representa a Associação de Produtores Remanescentes de Quilombo de Queimada Nova para a comunidade morrense? Quais os projetos?


Eu vejo que essa associação, ela, é referência. Não só na nossa comunidade, na microrregião e no município de Morro do Chapéu. Ela tem uma referência de organização, de conquistas, então, eu a vejo como uma referência para as outras associações. Temos o Minha Casa Minha Vida, Bahia Produtiva, Artesanato, o Projeto dos Biscoitos, Sabão Quilombola.


Primeira reunião de 2020, entre associados (as)/Imagem: Sirlene Santos

No início de janeiro de 2020, aconteceu um mutirão de limpeza organizado pela Associação na comunidade. Atividades como essa acontecem com frequência? Como incentivar a participação dos moradores (as) nos projetos?


A gente sempre tem o costume de fazer o mutirão. A associação, sempre quando necessita de fazer o mutirão, faz sempre. É comum. A gente consegue reunir muitas pessoas. Não 100%, mas, 50 a 60% dos sócios participam dos mutirões, porque a gente mostra pra eles, tem a tradição de fazer. Então, essa demanda continua. A gente tá sempre orientando, incentivando as envolvidas nos projetos, nos artesanatos, nos biscoitos, no sabão, enfim; que elas façam produtos, que elas vendem, aí, elas têm uma porcentagem no trabalho que elas fazem, então, incentiva muito as sócias fazerem esse trabalho. Elas têm esse incentivo; além do que elas produzem, elas têm participação na porcentagem da associação para elas seguir em frente.


A senhora é a primeira mulher a ocupar o cargo de presidente da Associação. Como aconteceu esse processo político de chegada do poder feminino na comunidade depois de vários mandatos com homens no topo hierárquico da associação? Como lidar com o machismo nesse aspecto?


Desde a fundação, eu já fui ser sócia e, a partir daí, não me afastei mais. Senti o gosto, o prazer do associativismo, continuo até hoje nessa associação. Eu fui secretária muitos anos, tesoureira, cons. fiscal e já estou no terceiro mandato de presidente, com dois mandatos consecutivos e, agora, estou novamente. Houve resistência por parte dos homens, achando que por eu ser mulher não seria capaz, né, de assumir esse cargo de presidente, porque na nossa associação estava sendo a primeira mulher a ser presidente. Isso deve ter uns seis anos mais ou menos. Assumi com coragem, determinação e deu certo. Então, assim, de qualquer forma, a resistência dos homens foi muita, mas não temi. Hoje caiu um pouco, mas ainda existe. Não é com aquela mesma quantidade, porque alguns viram o trabalho e acreditaram, mas ainda hoje ainda existe na própria associação homens com esse preconceito, com esse machismo, mas eu continuo, tô aí, de pé, firme.


"Não tem muitas políticas públicas do governo federal voltadas para as associações, principalmente quilombolas", afirma/Imagem: Sirlene Santos

Como a Associação de Produtores Remanescentes de Quilombo de Queimada Nova tem sobrevivido diante a falta de incentivo de políticas públicas sociais por parte do atual Governo Federal?


A associação tem sobrevivido através dos sócios, com os esforços, né, dos próprios sócios, das pessoas da comunidade. O Projeto Minha Casa Minha vida é do Governo de Dilma, com esse atual, mudou muito a história. Não tem muitas políticas públicas do governo federal voltadas para as associações, principalmente quilombolas, então, o que a gente conseguiu foi no governo anterior. O que a gente tá executando foi do governo anterior.


O Governo Municipal contribui para manutenção e realização das atividades da Associação? De qual forma?


Contribui. Quando a gente necessita de ajuda de custo pra executar os projetos, né, a Secretaria de Assistência Social tá sempre nos ajudando; sempre nos dá a mão. Da forma deles, ou com transporte ou com alimentação. A gente sempre tem o apoio deles. Na entrega das casas, eles contribuem com lanche; na execução do projeto das mulheres dos biscoitos, eles contribuem. Agora, nessa pandemia do coronavírus a Secretaria forneceu material pra fabricação de máscaras, então, assim: a Gestão tá sempre nos ajudando. Se a gente solicita, eles não negam.


Dona Lili apresenta a sede da associação e fala sobre parcerias com outras entidades do município/Imagem: Sirlene Santos

Existe algum de tipo de parceria com outras associações do município?


Sim. Nós temos parceria com as associações aqui circunvizinhas. Nós temos o projeto de artesanato, esse projeto a gente abriu um leque pra Ouricuri II e Velame. A gente tem os artesanatos que saíram daqui, as máquinas, a gente cedeu o espaço pra elas trabalharem. Ficam umas máquinas em Ouricuri e outras em Velame e aqui na sede da associação também, mas essas máquinas saíram daqui, da nossa associação. Nós temos parcerias também em relação ao dia da mulher, dia da criança, a gente traz palestrantes, envolve as associações vizinhas, trocando experiências juntas. A gente convoca elas pra participarem dos nossos eventos.


Qual a receita do biscoito quilombola?


[risos] A receita do biscoito é muito simples. Carinho, diálogo, união e, pra finalizar – para o biscoito ficar mais saboroso, uma pitadinha de amor. E pra quem quiser conhecer, venha nos visitar pra gente trocar experiências. Traz o saber de vocês e leva o nosso saber, aí, juntos, vamos ter uma receita maravilhosa.


Veja outras imagens


Quilombo de Queimada Nova - Morro do Chapéu - Bahia
As brincadeiras na rua ainda são as preferidas pelas crianças de Queimada Nova
A caminho da sede da associação, em Queimada Nova
Associação fundada em agosto de 1985

* Sirlene Santos é Diretora de Conteúdo do Repare Quilombo

* Nathan Rocha contribuiu nesta entrevista

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