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PERFIL: “Coloquei a cabeça no lugar e falei: Trabalho não é vergonha”

Conheça o perfil de Daiane, a gari que se tornou fiscal dos agentes de limpeza pública, e empreendedora em Morro do Chapéu.


Por Nathan Rocha

Daiane não usa o uniforme de fiscal porque ela ainda não tem/Imagem: Sirlene Santos


Nascida e criada em Morro do Chapéu, Daiane Oliveira da Silva, 37 anos, é gari.


Em 2009, ela passou no concurso público, e, em 2010, começou a trabalhar na limpeza pública do município. De lá para cá, preconceitos foram rompidos na vida de Daiane.


Sentada em um dos bancos da Praça da Música e embalada pela sinfonia de alguns poucos passarinhos, que, da copa de uma ou outra árvore centenária (que ainda restara) –, e faziam a festa na manhã daquela primeira segunda-feira de abril de 2020, Daiane disse, durante a nossa conversa, que, após quatro anos de “passada no concurso”, foi chamada para ser fiscal dos agentes de limpeza pública. Cargo que ela ocupa até hoje, com muita maestria.


Mãe de três filhos, Daiane tem um bebezinho de quatro meses de vida. Os outros dois filhos mais velhos, de 18 e 20 anos de idade, sempre se orgulharam da profissão da mãe. Na escola, sua profissão nunca foi motivo de vergonha ou negação para os seus filhos, garante.


Entretanto, ela recorda também que no começo, quando começou varrer as ruas, ela mesma vivenciou situações que a deixavam com vergonha da própria profissão.


– Não vou mentir, não. Em alguns momentos, eu fiquei com vergonha. Assim, não por mim, mas pelas pessoas, porque quando eu cheguei, eu fiquei meio sem jeito. Meus colegas de escola ficaram sem querer falar comigo no início. Mas eu cheguei em minha casa, coloquei a cabeça no lugar, e falei: trabalho não é vergonha! Aí, quando eles passavam, eu mesma falava: "oi, bom dia, fulano", então, assim, eu fui quebrando a vergonha que eu tinha dentro de mim.

"As pessoas têm muito preconceito com gari", diz Daiane/Imagem: Sirlene Santos

Além de todo o preconceito existente em relação ao trabalho de gari, Daiane também teve que lidar com o machismo, principalmente quando assumiu a fiscalização dos agentes de limpeza. Ela entende que ocupar um cargo de liderança precisa ter muito jogo de cintura. Atualmente, ela lidera um grupo de 15 funcionários (as), mas recorda que já chegou a fiscalizar um número de 40 pessoas, aproximadamente.


– A nossa classe é bem discriminada, sabe? Agora com esse coronavírus mesmo a minha colega foi pedir um copo com água, e a mulher deu um copo de vidro, e disse que ela já podia carregar o copo. Alguns estabelecimentos não estão deixando a gente ir ao banheiro, antes também... É que a gente não é bem vista pela sociedade. O pessoal acha que porque a gente trabalha com lixo, a gente é lixeiro, que não toma banho, que não escova o dente, que não penteia os cabelos. As pessoas têm muito preconceito com gari.


Daiane fala que sempre teve muito cuidado com a higiene pessoal mesmo antes do coronavírus. Ela sempre usou álcool em gel. E apesar da rua não ter pia com água acessível e nem banheiros, ela costuma lavar as mãos com sabonete, sempre que possível.


Perguntada, inevitavelmente, sobre as condições de segurança de trabalho oferecidas pelo setor público responsável, ainda mais em tempos de Covid-19, Daiane relata que houve uma conversa, que o pessoal se reuniu e explicou a respeito de algumas medidas de prevenção que todos deveriam adotar no trabalho. Em relação à higiene pessoal dos agentes, já que eles estão o tempo todo nas ruas, ela disse:


– A gente tinha antes, mas como agora a gente tá sem o carro, que ficava água no carro, que dava suporte, aí agora como a gente tá sem o carro, mas em breve vai retornar... Mas, assim, nos estabelecimentos públicos, a gente pode entrar, pode beber água, pode ir ao banheiro; é liberado. Já nos privados é que tem aquele receio como sempre.



Agentes de limpeza pública são orientados (as) por Daiane, na Praça da Música, em Morro do Chapéu/Imagem: Sirlene Santos

Pensando na segurança da sua saúde, Daiane conta também que desde quando começou a trabalhar carrega uma bolsa com álcool em gel, com água e papel higiênico. Sabendo do preconceito, ela evita pedir aos outros para usar o banheiro ou água para beber.


De volta da licença maternidade há duas semanas, Daiane trabalha de segunda à sexta. Ela conta que antes trabalhava também nos finais de semana. Isso mudou. Depois do coronavírus, ela diz que a carga horária também diminuiu um pouco. Ela trabalhava das seis às 12 horas. “Agora, começa sete e termina às 11 horas”, explica.


– Antes de ir para o trabalho, acordo seis da manhã, antes, acordava cinco... Faço o café, deixo o almoço pronto...


Neste momento, Daiane fora interrompida...


Segundos antes, a gente tinha proposto uma pequena mudança no rumo da conversa. Na verdade, entender a rotina pessoal de Daiane e como ela consegue administrar a sua casa também se fazia necessário. E no momento em que ela começara falar sobre a rotina doméstica, fora interrompida pelos fiscais da Vigilância Sanitária Municipal, que nos orientou, dentre outras coisas, a não ficar muito tempo na praça.


Retomando...


– Então, já deixo tudo pronto. Meu filho Jack é que toma conta de Ravi, o meu outro filho de quatro meses. Meus filhos sempre fizeram tudo em casa, lava prato, limpeza, tudo... Agora, com esse coronavírus, quase que a gente não tá recebendo ninguém.



Além de agente de limpeza pública, Daiane também é empreendedora/Imagem: Sirlene Santos

Daiane é uma mulher religiosa. Cristã, frequenta uma igreja evangélica na Avenida Joel Modesto. E é através da sua fé em Jesus, que ela tira forças para trabalhar, organizar a sua casa, tomar conta dos filhos e lidar com as adversidades do trabalho.


Por falar em adversidades, ela se descobriu confeiteira nos últimos anos. Em 2019, teve que dar um tempo tanto com a produção de doces, quanto no trabalho de gari. A sua última gravidez foi bastante arriscada. Ela teve que se resguardar um pouco.


Agora, de volta as suas atividades, Daiane, que abriu recentemente uma loja que vende produtos de confeitaria, pretende seguir empreendendo, quando não estiver nas ruas de Morro do Chapéu, ajudando as suas colegas de profissão.


Ela finaliza dizendo que já tem o CNPJ. Diz também que esse momento sombrio de coronavírus vai passar. Ela espera que mudanças positivas aconteçam na cidade que ela tanto ama. E torce para que novas oportunidades surjam em Morro do Chapéu.


Se depender da força de vontade de Daiane, pode ter certeza que novos caminhos irão se abrir sim na “terra do frio”, com empatia e fé.


Mesmo diante as dificuldades enfrentadas no cotidiano, Daiane acredita em um futuro ainda mais promissor para ela e para Morro do Chapéu/Imagem: Sirlene Santos


* Nathan Rocha é repórter do Repare Quilombo




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