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Em meio à quarentena: relatos, dificuldades e prejuízos

Trabalhadores informais de Morro do Chapéu relatam como o isolamento social devido ao novo coronavírus mudou as suas rotinas de trabalho.


Por Nathan Rocha

Lucineide Rosa, 43 anos, é dona de uma pequena quitanda montada na frente da sua casa, na Av. Joel Modesto/Imagem: Nathan Rocha

Mesmo tendo uma exceção para funcionamento, de acordo com o Decreto Municipal nº 031/2020, de 21 de março de 2020, Lucineide Rosa, 43 anos, a Índia, como é mais conhecida por amigos e vizinhança, viu as vendas da sua quitanda caírem de forma alarmante no final de março a início de abril deste ano, período inicial da quarentena. “Foi horrível, estava ruim”, desabafa.


“Já trabalhei muito em roça, em casa de família, mas carteira assinada até hoje, nunca”, conta Índia, que trabalha há três anos na quitanda montada na calçada em frente à casa de sua mãe, com quem mora. A vendedora de frutas e verduras mora também com mais cinco pessoas: o seu esposo, um filho ainda criança e outros três adultos; esses, sem uma renda fixa. Mesmo com medo e sabendo dos riscos de contaminação pelo novo coronavírus, Índia não deixou de abrir o seu pequeno comércio, entretanto, se recorda das medidas de prevenção que ela adotou.


“Álcool, muito álcool não falta. Bastante Qboa de manhã quando eu levanto pra lavar a calçada. De noite, quando eu termino de guardar a mercadoria, providencio logo água sanitária com balde, pra poder lavar tudo”, relata. Ela lembra ainda que o “pessoal” da Vigilância Sanitária Municipal sempre passa na rua, porém, nunca a orientou em nada. “Eu acho que é porque eles via que estava tudo certinho, não tinha nada de errado”, pondera.


“Fecha mais ou menos isso aí”, calcula ciente que, na quarentena, esse valor “caiu muito”, lamenta/Imagem: Nathan Rocha

R$ 130,00 oriundos de programas sociais complementam a renda de Índia, que, somados com o lucro da quitanda e do pequeno bar – que funciona em um corredor estreito de pouco mais de um metro de largura do lado da casa –, varia entre 1000 a R$ 1.200,00 por mês. “Fecha mais ou menos isso aí”, calcula ciente que, na quarentena, esse valor “caiu muito”, lamenta.


Além do medo e das medidas de prevenção para enfrentar o coronavírus durante o trabalho, Índia teve que lidar com outro problema. Dessa vez, nada que uma boa conversa “mantendo certa distância” não pudesse resolver. Acontece que em cidades pequenas, pelo fato de “todo mundo conhecer todo mundo”, pegar na mão ou cumprimentar com um abraço é quase que inevitável, porém, durante o isolamento, Índia sempre foi prudente. “Tem clientes que chegam pra pegar na mão, eu converso com eles, pra evitar, né, eu faço uma brincadeira, dou risada, pra evitar esse tipo de contato”, conta.


Corona Prejuízo

“Prejuízo total, com coisas vencendo. A mercadoria tá perdida praticamente”, disse o microempreendedor individual/Imagem: Nathan Rocha

Leonildo Dias de Souza, 38 anos, é dono de um pequeno bar no centro de abastecimento em Morro do Chapéu. Nem se quisesse, não poderia ter esse “jogo de cintura” de Índia, em relação à clientela, porque durante o isolamento social, Leonildo não pode trabalhar.


A reportagem conversou com ele em 15 de abril de 2020. Naquele período, o bar de Leonildo já estava fechado há 24 dias. “Prejuízo total, com coisas vencendo. A mercadoria tá perdida praticamente”, disse o microempreendedor individual, sem previsão de quando poderá reabrir o estabelecimento.


Frente do bar de Leonildo em Morro do Chapéu/Imagem: Nathan Rocha

“Eu mesmo fiz o cadastro, já tá em análise pra sempre”, criticou Leonildo, se referindo à demora de aprovação do Auxílio Emergencial de R$ 600,00 lançado no início do mês passado pelo governo federal. O benefício foi criado para garantir uma renda mínima aos brasileiros em situação mais vulnerável durante a pandemia da Covid-19. Porém, Souza “não bota fé, nisso aí”, disse o dono do bar, enquanto aguardava o dinheiro cair na conta.


“Vou continuar aí como Deus quer, e se aí agora a gente vê que não vai gerar outra renda, vou ter que fazer algum empréstimo”, avalia preocupado Souza, que, mesmo diante de toda a dificuldade enfrentada, não pensa em fechar o bar, definitivamente. “Não, eu não tenho esse pensamento. Brasileiro é perseverante. Eu mesmo, né pouca coisa pra baixar a minha cabeça, não”, afirma, se referindo ao clima de insegura em que vive.


Trabalhando como mototaxista há pouco mais de dois anos em Morro do Chapéu, Gilvan Neto Pereira, 38 anos, teve que diminuir a carga horária de trabalho. Isso, porque, durante o isolamento social, ele viu a clientela diminuir “em mais de 50%”, conta. “Diminui muito os clientes. Sem dúvida nenhuma, tá sendo o período mais difícil, nem só pra mim, mas para todos os colegas mototaxistas”, desabafa.


Com a queda nos números dos clientes, Gilvan Neto viu desabar também os números da sua única fonte de renda, atualmente. “Caiu a renda aí, pelo menos pra mim mesmo que não tô vindo o tempo todo aqui, caiu mais de 50% também”, lamenta. “Tô vindo aqui umas quatro horas por dia; passei alguns dias sem vim também”, explica o mototaxista. Ele explica também que, por medo da contaminação pelo novo coronavírus, “os clientes estão evitando usar o capacete (compartilhado)”, diz.


“A gente não recebeu nenhum auxílio, assim, por parte, sei lá, da Prefeitura ou de alguém que pudesse procurar pra dar uma ajuda pra esse pessoal do trabalho informal, então, só o auxilio aí do governo federal”, comenta preocupado e sem expectativa de quando toda a pandemia do coronavírus poderá ter um ponto final. Enquanto isso, Gilvan Neto executa algumas medidas de prevenção durante o trabalho: “A maneira que eu procurei de me precaver aqui é evitando aglomeração, e com a higiene, sempre quando chego de uma corrida lavo as mãos”, conclui.


“Vejam esse momento como um problema de todos, e que cada um faça sua parte para que logo voltemos a ter dias melhores”


Assistente administrativa no setor da coordenação da Atenção Básica na Secretaria Municipal de Saúde em Morro do Chapéu, a técnica de enfermagem, Eliete Pinho dos Santos, 36 anos, participou algumas vezes da barreira sanitária no mês de março desse ano. Conforme Eliete, a sua experiência foi bastante somatória, na qual, pôde perceber que muitas pessoas sequer sabiam como se protegerem do novo coronavírus. “Muitas pessoas relatavam apenas saber que era um vírus, mas não sabiam exatamente qual forma de contágio e o que fazer para se proteger”, conta.


“Algumas pessoas chegaram a dizer que era bobagem tanta preocupação, e que esse vírus não chegaria a nossa cidade, que isso é coisa de cidade grande”, recorda a técnica de enfermagem. Em relação aos trabalhadores informais que precisam ir às ruas para trabalharem, por exemplo, Eliete disse que “as recomendações são praticamente as mesmas que estamos dando para demais funcionários e população em geral, que usem mascara ao sair de casa, lavar as mãos com água e sabão sempre que possível, caso não seja possível usar álcool em gel, manter o distanciamento de 1,5 m de outra pessoa”, explica.


Eliete conta, agora, com várias medidas de proteção “que antes não eram necessárias”, diz/Imagem de arquivo pessoal

Perguntada pela reportagem como as equipes de saúde local têm orientado moradores de bairros periféricos para que fiquem em isolamento social, Eliete destaca o trabalho dos Agentes Comunitários de Saúde (ACS). “Os ACS têm dado uma reforçada maior nessas áreas sobre o cumprimento de todas as medidas de contenção para que o vírus não se propague, por existir ainda locais sem saneamento básico o que causa uma maior facilidade de contaminação”, relata Eliete.


Apesar de todo o engajamento dos profissionais de saúde local em informar a população morrense sobre a necessidade do isolamento social, e de todos os riscos da Covid-19, Eliete, entretanto, se coloca no lugar das pessoas de baixa vulnerabilidade e tenta justificar a resistência dessas pessoas em ficarem em casa. “A vulnerabilidade a que estão expostas dentro das residências faz com que os mesmos sejam obrigados a sair de casa, para adquirir alimentos para a família, remédios, atendimento médico ou até mesmo fugir de algum tipo de violência que estejam sofrendo no momento”, explica.


A rotina de trabalho de Eliete conta, agora, com várias medidas de proteção “que antes não eram necessárias”, diz a técnica de enfermagem. “Atualmente estamos tendo várias reuniões para decidir medidas a serem adotadas para evitar a chegada do vírus”, afirma.


Ainda de acordo com Eliete, muitas de suas colegas de trabalho estão preocupadas, justamente por estarem na linha de frente do combate à doença. E no meio de toda essa guerra contra o coronavírus, a técnica de enfermagem chama atenção de um problema bastante inquietante: “a dificuldade que estamos enfrentando para a compra dos Equipamentos de Proteção Individual (EPI)”, pontua.


Corona Live

Imagem/TV Chapada

Para falar sobre as medidas de impacto social em tempos de pandemia, a Prefeitura Municipal de Morro do Chapéu realizou uma live no dia 13 de abril de 2020, com autoridades da Saúde, Assistência Social e Educação do município. “Nós decidimos abrir as nossas portas, os CRAS, para auxiliar as pessoas sobre o Auxílio Emergencial, porque nós entendemos que a informação via internet não chega a todas as pessoas”, disse Ândrea Valois, secretária municipal de Assistência Social.


A medida estabelecida naquele período pela Prefeitura contrariou as recomendações do Ministério da Saúde, que recomendou que as pessoas buscassem informações de forma presencial, em relação ao Auxílio Emergencial, somente nas lotéricas. Entretanto, Ândrea justificou ainda ao afirmar que, “nós temos moradores que, sequer, têm um telefone. Não podemos deixar que essas pessoas ‘fiquem’ sem receber o benefício por falta de informação”, disse durante a live.


Nas duas primeiras semanas de abril, por exemplo, a cidade de Morro do Chapéu disponibilizava de três barreiras sanitárias, conforme fala de Lorena Bonfim, coordenadora da Vigilância Epidemiológica Municipal. “Já abordamos 254 pessoas oriundas de várias cidades, como: Salvador, Goiana, Utinga, Canarana”, exemplificou durante transmissão ao vivo.


A coordenadora da Vigilância Epidemiológica disse que uma das maiores dificuldades encontradas pelas equipes de saúde local, no período de quarentena, é o fato de “monitorar as famílias vindas de fora”, disse Lorena, que, lamentavelmente, afirmou que “as pessoas não estão respeitando o isolamento mínimo de sete dias”, criticou.


Vale ressaltar que foi publicada no Diário Oficial da União, portaria de n° 774, de 09 de abril de 2020, com um total de R$ 433.921,92 destinados pelo Ministério da Saúde (MS) ao custeio de ações e serviços relacionados ao combate do coronavírus no município de Morro do Chapéu.

Fonte - httpconass.org.br

Corona News


Se por um lado, a informação oficial também é ferramenta efetiva no combate a Covid-19, por outro, as fake news surgem como vilãs aliadas à pandemia do novo coronavírus. A jornalista Caroline Oliveira, 23 anos, diz que moradores de bairros periféricos e da zona rural são os mais afetados pelo coronavírus “já que as informações demoram mais para chegar”, conta. De acordo com Caroline, existe certo “distanciamento das informações” passadas pelos órgãos oficiais e autoridades de saúde em relação a esse público.


“É preocupante, há uma quantidade enorme de conteúdo falso envolvendo as informações sobre a doença, comparações com resfriado, remédios milagrosos, teorias da conspiração, além de supostos casos que incitam a histeria coletiva”, diz a jornalista. Ela explica ainda que, “a única solução para esta situação é os órgãos municipais, estaduais e federais ajudarem essa população mais carente a consumir informação de canais de credibilidade”, afirma.


Na guerra contra o coronavírus e contra a desinformação a respeito da doença, assim como a técnica de enfermagem Eliete Pinho, Caroline, ressalta a importância do trabalho dos agentes de saúde, que, segundo ela, “tornaram-se educadores também”, garante. Nesse sentido, ela diz que “na comunidade quilombola de Cutia, em Boninal, o agente de saúde do povoado gravou diversos vídeos instruindo a população, o que foi um excelente mecanismo”, avalia.


Ainda preocupada com moradores de bairros mais afastados e da zona rural de cidades da Chapada Diamantina, Caroline lembra que os carros de som em cidades do interior ainda possuem muita credibilidade. Conforme a jornalista, o carro de som chama mais atenção em cidades como Morro do Chapéu.


“Além de possuírem uma presença forte, quando passam, despertam curiosidade. Eles, em parceria com outras ferramentas, permitem realizar ações em locais mais isolados, já que você escolhe em quais locais o veículo vai passar”, conclui.


* Nathan Rocha é repórter Repare Quilombo


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