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Empoderamento negro infantil no Morro e nas redes

“Ana Júlia tem a oportunidade de ser o que ela é. Ela vai estudar, vai trabalhar e o mundo vai se adequar a ela e não ela se adequar ao mundo”, afirma Vanessa.


Por Nathan Rocha


Ana Júlia, 07 anos de idade/Imagem: Pedro Henrique

O comportamento da mulher é limitado desde a infância. Logo nos primeiros anos de vida a menina é “ensinada” a não jogar bola, por exemplo, porque é “brincadeira de meninos”. Ou, ainda, já na adolescência é instruída a cozinhar bem porque “precisa estar boa para casar”.


Neste sentido, se há quem dissemina ou reproduz atitudes machistas, sempre há também quem se opõe, e ensina filhas e filhos, desde cedo, a combater a cultura do machismo. É o caso de Vanessa Araújo, 27 anos, mãe da pequena Ana Júlia Araújo Rocha, de apenas sete anos de idade.


“Eu acredito que ensinar a minha filha a se empoderar, além de combater o racismo é combater também o machismo”, conta Vanessa, que explica também que nasceu numa época na qual a “mulher era ensinada a casar, ter o marido e viver para dentro de casa”, conta. “A minha mãe alisava o meu cabelo. Hoje, eu tenho outra visão. Essa outra visão é a que eu quero que a minha filha tenha. Ana Júlia tem a oportunidade de ser o que ela é. Ela vai estudar, vai trabalhar e o mundo vai se adequar a ela e não ela se adequar ao mundo”, afirma Vanessa.



“Ela tinha dois anos quando eu comecei a tirar fotos", lembra Vanessa/Imagem: Catherine Ribeiro

Ana Júlia divide o seu tempo entre estudar, brincar e fazer poses fotográficas. “Ela tinha dois anos quando eu comecei a tirar fotos. Eu colocava os óculos nela, eu arrumava os cachos dela. Aí, ela colocava a mão na cintura e fazia as poses que ela queria fazer. Sempre foi pra frente. Eu tirava as fotos e postava na minha conta, depois criei o insta dela”, conta Vanessa se referindo ao perfil no instagram, criado exclusivamente para a filha.


Espaços de poder on e off


O @diariodajuju5y como é chamado e que é monitorado por Vanessa, é dedicado a fotos e vídeos engraçados do cotidiano de Ana Júlia. Mas engana-se, quem pensa que se trata apenas do compartilhamento de fotos. O Diário da Juju é um espaço digital político resultante de todo um processo de empoderamento negro infantil ensinado pela mãe. Neste sentindo, a psicopedagoga Mari Márcia da Paz, 47 anos, explica que o empoderamento negro infantil pode ser ensinado também a partir da “valorização dos ancestrais, com o resgate da cultura local quilombola, das artes, literatura e biografia de celebridades negras”, afirma.


Professora da Educação Infantil há 12 anos na comunidade quilombola de Veredinha, no município de Morro do Chapéu – BA, Mari Márcia, relata que o trabalho psicopedagógico realizado na unidade escolar objetiva valorizar a beleza negra, elevar a autoestima das crianças e prepará-las para novas experiências em outros espaços. “Tudo é pensando no momento em que elas deixam a escola local [rural], e partem para a escola urbana, na qual irão se deparar com uma diversidade de pessoas e culturas diferentes, pois na nossa escola somos quase 100% quilombolas”, diz a psicopedagoga.


Ainda de acordo com Mari Márcia, a escola de Veredinha desenvolve várias atividades lúdicas para incentivar o empoderamento negro infantil; além da exibição de vídeos e desenhos animados com a temática afro-brasileira, a escola conta ainda com o apoio de familiares dos alunos (as). “Durante todo o processo de empoderamento trabalhado na escola há uma colaboração significativa dos familiares, tanto para ensinar as crianças na confecção de objetos, quanto para ensinar as letras de músicas e tocar pandeiro, e, ainda, para contar a história dos seus antepassados”, conclui Mari Márcia.


Encontro de Cacheados (as) em Morro do Chapéu


3ª edição do Encontro de Cacheados (as), em 2019, Praça da Música/Imagem: Welton Matos

“Desde cedo, a gente tem uma visão de que nosso cabelo por ser crespo ou cacheado é feio”, diz Fernanda Correia, modelo, 20 anos, e uma das idealizadoras do Encontro de Cacheados (as), que acontece há três anos em Morro do Chapéu. Ela explica ainda que o evento tem como objetivo “ajudar crianças e adolescentes negras a aceitarem os seus cabelos crespos”, conta.


A vontade de promover um evento social, que pudesse ajudar meninas e meninos negros a se empoderarem, despertou depois que a modelo morrense começou a seguir mulheres negras famosas e empoderadas nas redes sociais, porém, a inspiração que surgiu a partir da internet, não foi apenas o único motivo de Fernanda. “Eu sempre via meninas com os cabelos iguais aos meus com vergonha de soltar o cabelo, de se empoderar, vergonha do próprio corpo e isso me incentivou muito a querer ajudar”, afirma Fernanda.



Fernanda Correia, modelo, 20 anos/Imagem: Welton Matos

O Encontro de Cacheados (as) é promovido em parceria com o Coletivo Empodera Morro, e acontece sempre ao ar livre, nas praças da cidade. Roda de conversa, desfiles e oficinas de penteados e turbantes são algumas atividades que fazem parte da programação cultural do Encontro, que a cada edição tem conquistado um público infanto-juvenil bem diversificado.


Crimes de racismo aumentam na Bahia


Apenas no Aplicativo Mapa do Racismo e da Intolerância Religiosa do Estado da Bahia, 54 denúncias de racismo foram registradas, entre novembro de 2018 e maio de 2020. O Aplicativo mapeia todo o estado baiano.


Já de acordo com informações disponibilizadas pelo Centro de Referência de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa Nelson Mandela, ligado à Secretaria de Promoção da Igualdade Racial (Sepromi), o número de crimes de racismo têm crescido na Bahia. Segundo o órgão, as denúncias aumentaram em 1.210% no estado, nos últimos seis anos.

* Nathan Rocha é repórter do Repare Quilombo


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