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Entrevista: “Juntas nós somos mais fortes”, afirma Priscila Vasconcelos, do Empodera Morro

Atualizado: 28 de Nov de 2020

Por Nathan Rocha

Priscila Alves de Vasconcelos Costa, 32 anos, jornalista, membro do coletivo Empodera Morro/Imagem: Arquivo Pessoal

Entre os dias 24 e 26 de novembro de 2020, o coletivo Empodera Morro, Escolas Criativas e a Enel Green Power apresentaram o Empodera Mulher, evento ou seminários online com uma programação voltada para o empoderamento feminino e com propostas de discussões nas áreas de arte, cultura, política, educação, gastronomia, questões de gênero e ancestralidade.

O coletivo Empodera Morro, que foi criado em 2017, por um grupo de jovens, já realizou diversas atividades de fortalecimento de minorias no município de Morro do Chapéu e também na cidade de Cafarnaum. Em suas ações o Empodera busca unir sociedade civil, poder público e iniciativa privada, a exemplo dos eventos do Mês de Empoderamento Feminino (fórum de mulheres, pedalada feminina e encontro de crespas e cacheadas), e do Natal do Bem.

A nossa entrevistada, Priscila Alves de Vasconcelos Costa, 32 anos, jornalista, é membro do Empodera Morro. Ela diz que o coletivo morrense vai além de um espaço para discussão. “O grupo já virou referência na cidade e está sempre sendo solicitado por pessoas que buscam apoio nas questões de aceitação de gênero e sexualidade, principalmente”, afirma.

Nesta entrevista ao Repare Quilombo, ocorrida logo após a realização do Empodera Mulher, Priscila fala sobre a importância do empoderamento feminino; explica como surgiu a ideia dos seminários online; e fala também a respeito da importância do Empodera Mulher na luta antirracista.


Confira abaixo a entrevista.

Grupo idealizador do coletivo Empodera Morro/Imagem: Arquivo Pessoal

Por que empoderar a mulher é preciso, sobretudo a mulher morrense?


As mulheres precisam perceber o papel de importância que tem na sociedade. E só através da união das mesmas e do conhecimento da força que nós exercemos é que vamos poder ocupar o lugar que nos é de direito. É preciso que a gente se livre das amarras que o sistema patriarcal nos colocou e é ai que entra a necessidade de nos empoderar, não só a mulher morrense, mas todas as mulheres. A partir do momento que a gente percebe que não somos rivais e que juntas nós somos mais fortes não tem homem que consiga nos rebaixar, humilhar e violentar. Estabelecer uma rede de apoio feminino é questão de sobrevivência para todas nós.


A deputada estadual Olívia Santana (PC do B), a cantora Bia Ferreira (SE), e a professora Maria Isabel Gonçalves, da cidade de Seabra, são alguns nomes que participaram do seminário Empodera Mulher. De qual forma aconteceu à construção da programação do evento e a escolha das convidadas?


Card de divulgação do Empodera Mulher/2020

Desde 2017 o coletivo realiza ações durante o mês de novembro que é dedicado ao empoderamento feminino e ao combate da violência contra a mulher, esse ano devido à pandemia não foi possível fazer os eventos para evitar as aglomerações, mas a gente não podia deixar sem realizar nada, então veio à ideia de fazer algumas lives para abordar temas de fortalecimento do poder da mulher. Buscamos o apoio de uma produtora cultural para pensarmos a melhor forma de botar isso em prática, a partir daí começamos a buscar mulheres que fossem referência nos temas que queríamos abordar, nomes como os citados, são nomes de mulheres de luta e que veem há muito tempo realizando trabalhos para combater a sociedade machista e misógina em que vivemos. Olivia Santana, por exemplo, é uma das mulheres que sempre sonhamos em trazer para nosso fórum, mas por conta da agenda dela nunca foi possível e esse ano por ser um evento online permitiu que ela participasse. Acho que esse foi o ponto mais positivo do evento, ouvir mulheres que a gente sempre quis trazer pro Morro, mas que por diversos motivos não podiam estar aqui e a internet nos possibilitou isso.


Os seminários online do Empodera Mulher atendeu a expectativa do coletivo? É possível falar sobre o feedback do público?


Lógico que nada supera o estar junto, as trocas de experiências nos eventos presenciais, mas a reprodução na internet nos permite um alcance maior de pessoas, pois as lives estarão salvas no canal do Youtube do Escolas Criativas e poderão ser acessadas a qualquer momento e em qualquer lugar. Quem acompanhou os três dias do Seminário Empodera Mulher ficou encantado e fortalecido com as falas e vivências de nossas convidadas e com certeza levarão isso pra vida.


Qual a importância do Empodera Mulher para a luta antirracista em Morro do Chapéu?


O Empodera Mulher contou em sua maioria com a participação de mulheres negras e que abordaram a sua luta e vivência nesse Brasil tão racista, as falas dessas mulheres serviram para encorajar e fortalecer a nossa luta. Espero muito que isso desperte nas pessoas o desejo de lutar pelos seus direitos e se afirmar como negros, assumir a nossa ancestralidade e a partir disso parar de baixar a cabeça para as coisas que nos são impostas. Como muito bem disse Rosalina Santos em sua fala é preciso Resistir para Existir.


Imagem/Escolas Criativas

Ciente do papel das empresas para o crescimento das economias e para o desenvolvimento humano, a ONU Mulheres e o Pacto Global criaram os Princípios de Empoderamento das Mulheres. Aqui, ressaltamos o 7° princípio, que diz: Medir, documentar e publicar os progressos da empresa na promoção da igualdade de gênero. Neste sentido, é perceptível o empenho do comércio local em promover essas medidas citadas?

Infelizmente ainda é pouco perceptível o empenho do comércio e empresas em promover a igualdade de gênero, não só aqui em Morro do Chapéu. Por isso é importante à união das mulheres e o combate a essas desigualdades.


As discussões sobre o empoderamento feminino têm gerado, por exemplo, debates sobre o espaço da mulher na sociedade. Neste sentido, as mulheres de Morro do Chapéu têm assumido seus espaços na sociedade morrense?


Historicamente as mulheres sempre estiveram à margem da sociedade, assumindo o papel de cuidadora do lar e da família, mas isso felizmente vem mudando paulatinamente e hoje já vemos aqui em nossa cidade muitas mulheres que buscam ocupar os diversos espaços, por exemplo, temos mulheres que estão buscando sua independência financeira por meio do empreendedorismo, gerando uma rede de apoio entre si e muitas vezes gerando emprego para outras mulheres, mas a gente sabe que isso ainda é privilégio para poucas e que a ocupação dos espaços da sociedade pelas mulheres só vai ser possível com muita luta. Outro exemplo percebido em Morro do Chapéu é a participação das mulheres no poder legislativo municipal, num ano em que o número de mulheres caiu em diversas câmaras municipais, a nova legislatura daqui contará com quatro mulheres e isso é muito importante para fortalecer a luta pela representatividade feminina e encojarar outras mulheres.

Imagem/Escolas Criativas

Priscila, o resultado das eleições municipais de 2020, em Morro do Chapéu, mostrou a primeira mulher prefeita eleita na história política-administrativa do município. Tal resultado se trata de um avanço na esfera pública local? Qual a sua avaliação deste fato político?


Com certeza esse é um fato a ser celebrado, já que a política sempre foi um espaço majoritariamente ocupado por homens, mas eu acho que mais importante do que isso é esperar que a prefeita eleita não se deixe levar pelos moldes machistas de fazer política. Torcer para que ela paute e lute pelas questões femininas e que use a sua força política para fortalecer as mulheres do nosso município.


O coletivo Empodera Morro se articula para apoiar alguma candidatura feminina local nas próximas eleições?


O coletivo sempre foi apartidário, mas acho sim importante que ele seja ativo politicamente. Até o momento não foi discutido nada sobre apoiar uma candidatura nas próximas eleições, mas é uma coisa que não pode ser descartada, já que precisamos estar representadas em todas as esferas de poder.


Tem alguma mulher que você costuma reparar e que é fonte de inspiração para a caminhada do Empodera Morro?


Como mulher negra, gorda e mãe solo busco estar sempre em contato com pessoas que apoiem e que defendam esses interesses, admiro muitas mulheres ativistas, mas minha fonte de inspiração e força está nas mulheres do meu dia a dia e aqui posso citar minha avó, minha mãe e minhas tias, além de algumas amigas.


_Nathan Rocha é repórter do Repare Quilombo.

_Sirlene Santos colaborou nesta entrevista.


Veja outras imagens:


Imagem/Empodera Morro
O Empodera Mulher também teve apoio da Associação dos Produtores Remanescentes de Quilombo de Queimada Nova (APRQQN)/Imagem: Escolas Criativas
Card de divulgação do Empodera Mulher/2020

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