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Entrevista: "Tenho certeza que Deus não aceita o preconceito", diz ativista trans Mellissa Ribeiro

Atualizado: 16 de Jul de 2020

Por Nathan Rocha

Mellissa Ribeiro mudou o nome e o gênero no registro civil em setembro de 2018/Imagem: Nathan Rocha

Mellissa Ribeiro Souza tem 28 anos, é militante, cabeleireira autônoma e a primeira mulher trans de Morro do Chapéu a mudar o nome e o gênero no registro civil.


A retificação do nome nos documentos aconteceu em setembro de 2018, mas “apesar de muitos avanços e conquistas, nós mulheres trans, estamos sujeitas a sofrer transfobia, perseguições, julgamentos, negligência, difamações e atitudes preconceituosas”, conta Mellissa, que recebeu dois convites para se filiar em partidos políticos e concorrer ao legislativo municipal nas eleições de 2020.


Em entrevista ao Repare Quilombo, Mellissa fala que já foi barrada duas vezes na porta de banheiro feminino em Morro do Chapéu, que não se sente representada pelos atuais políticos locais, e que religiões predominantes são o pior inimigo da comunidade LGBTQIA+ porque “pregam o preconceito e a transfobia”, afirma.


A militante comenta também sobre a importância da representatividade trans, da falta de informação e da falta de interesse dos políticos locais em defender os direitos LGBTs, e faz uma observação para que a comunidade LGBTQIA+ se fortaleça para melhor entender e defender a pauta no município de Morro do Chapéu.


Há quanto tempo você se reconhece mulher trans?


Desde os meus seis anos [de idade]. Eu sempre me sentia diferente dos demais. E com o tempo, além de mim, muitos também foram percebendo que eu também era diferente. Aí, com o passar do tempo, fui me descobrindo ainda mais.


Como aconteceu o processo de transição? Teve apoio de familiares?


Não tive apoio de quase ninguém praticamente, mas felizmente, eu obtive apoio com pessoas que me incentivaram a correr atrás dos meus direitos e a lutar por minhas conquistas. Hoje, no Brasil, já existe muitos direitos para nós trans. O processo de transição é um deles e a hormonizacão e a transgenitalizacão (mudança de sexo via cirurgia) também, mas eu ainda não iniciei meu processo de transição hormonal.


Cabeleireira, Mellissa é trabalhadora autônoma/Imagem: Sirlene Santos

Pode explicar aos leitores e leitoras do Repare Quilombo como acontece à alteração hormonal? Você teve muitos conflitos em relação às mudanças do seu corpo?


Como falei, eu ainda não comecei o processo de transição hormonal, mas conheço muitas amigas que passam por esse processo e, sim, as alterações hormonais interferem muito na vida delas, desde a sua autoestima como também suas relações pessoais e sociais. Eu passei por um período quando me assumi que eu não era satisfeita com meu próprio corpo. Já sofri com esse complexo, mas com o passar do tempo, chegando até hoje, a aceitação maior tem que surgir realmente de quem eu sou. Sendo assim, me aceito e sou feliz como meu corpo é.


Ser transexual no Brasil é ter a vida permeada por ameaças de morte. Você tem medo de ser quem você é em uma cidade como Morro do Chapéu, no sertão baiano?


Então, todo mundo sabe, principalmente nós trans, que nós estamos em risco de vulnerabilidade social muito grande, infelizmente. E nossa realidade, apesar de muitos avanços e conquistas, nós mulheres trans, estamos sujeita a sofrer transfobia, perseguições, julgamentos, negligência, difamações e atitudes preconceituosas. Não é diferente aqui em Morro do Chapéu/Bahia, [cidade] na qual vivo há 10 anos, onde já passei por episódios de preconceito e transfobia, mas como sou uma pessoa esclarecida e coerente com minha identidade de gênero, sempre enfrentei isso sem baixar a cabeça. Nunca me calei; sempre denunciei e lutei pelos meus direitos, e assim vai ser enquanto eu viver aqui ou em qualquer lugar do mundo. Hoje, tenho muito orgulho de dizer que sou a primeira mulher trans a conseguir fazer a retificação do meu nome e gênero no registro civil, isso pra mim é uma das maiores conquistas da minha vida e também [pelo fato de] mostrar pra outras pessoas que nós somos capazes sim de lutar e protelar pelos nossos direitos, defendendo e exigindo respeito de toda a sociedade.


"Nos falta mais educação, acesso à saúde, emprego, segurança, leis específicas que punem todos os tipos de preconceitos", conta Mellissa/Imagem: Sirlene Santos

A cada três dias, uma mulher ou um homem trans é assassinado no Brasil, país que é líder no ranking mundial de ataques contra LGBTs, segundo a ONG Transgender Europe. Em sua opinião, de qual forma esta realidade poderia ser mudada?


Poderia ser mudada primeiramente se as pessoas respeitassem nossa identidade de gênero. Por mais que a Lei, hoje em dia exista pra essa questão, precisamos de políticas públicas afirmativas e inclusivas para as pessoas trans que se encontra em questão de vulnerabilidade. Nos falta mais educação, acesso à saúde, emprego, segurança, leis específicas que punem todos os tipos de preconceitos. Infelizmente, hoje, temos um governo fascista, machista e conservador. O nosso maior inimigo também são religiões que pregam o preconceito e a transfobia, onde são omitidos nossos direitos, mas não podemos nos calar e aceitar. Se fere a minha existência, serei a resistência. Vamos sim juntas lutar pelos nossos direitos.


Você já teve os seus direitos violados em Morro do Chapéu?


Sim. Uma vez, aliás, duas vezes me proibiram de usar o banheiro feminino. Para mim, isso foi à gota d'água, mas eu como sempre não abaixei a cabeça, fiz o enfrentamento não aceitando e sempre lutando e defendendo meus direitos. Muitas vezes, em diversos setores da sociedade, sofremos com a negligência e o descaso.


A pastora brasileira e 1ª reverenda trans da América Latina, Alexya Salvador, contou em entrevista ao Uol no início de 2020, que a população LGBT é "demonizada e escrachada pelas igrejas". O que você acha das igrejas que tentam combater a “ideologia de gênero”?


Eu acho uma falta de respeito, um atentado a nossa liberdade, porque são religiões preconceituosas que, ao invés de unir e combater o preconceito faz é disseminar. Isso é uma crueldade, desumanidade. Há lugares no mundo que pessoas LGBTs são mortas simplesmente por serem LGBT. Isso é inaceitável. Não dá pra se calar e ver isso acontecendo não. Chega. Isso já basta! Todas as religiões têm de sobrepor a nossa orientação. Isso é um direito nosso, mas claro, o respeito é algo que deva ser recíproco para haver a harmonia entre todos e todas. A religião, ao invés de julgar e perseguir poderia pregar a união e o amor, a igualdade para todos. Tenho certeza que DEUS NÃO ACEITA O PRECONCEITO! O Estado é laico!


Imagem/Sirlene Santos

Você enfrentou muita burocracia para alterar o nome e gênero de registro em sua documentação de nascimento pelo atual nome civil?


Sim, muita. Apesar de já existir a Lei da retificação de nome e gênero, ainda há muita desinformação, omissão e negligência por parte desse setor. Isso é inaceitável, eu sempre com minha coragem, resiliência e persistência, consegui concluir meu direito de mudança de nome e gênero nos meus documentos, graças a mim mesma. E espero que todas as outras pessoas trans possam garantir e exercer esse DIREITO também.


“Morro do Chapéu está preparada para este diálogo?”


Neste sentido, você acha que ainda falta muita informação sobre os direitos LGBTQIA+ no município?


Sim, muito. Afinal, Morro do Chapéu tem sim sua parcela de população LGBT, e ela precisa se unir e cobrar dos gestores e todos os setores da sociedade sobre os nossos direitos e no que diz respeito a todos eles. O diálogo saudável nesses setores é mais que necessário para conseguirmos sim a garantia desses direitos, e a hora é agora.


Por que representatividade trans importa?


Porque nada mais justo que uma pessoa, que passa por tudo isso e vive essa realidade para falar e debater sobre esse tema. Então, as pessoas TRANS, mulheres e homens, têm sim que representar de forma coerente e honesta a nossa classe, em busca de melhorias e conquista para Todas nós. E que possamos ajudar até mais aqueles que estão em situação mais desfavorável a reconhecer e lutar pelos seus direitos. Por isso, a representatividade TRANS É TÃO IMPORTANTE.


Você se sente representada pelos políticos locais?


Não. Falta mais diálogo, preocupação com nossos direitos e mais luta contra a LGBTFOBIA. Ainda há muita desinformação e negligência por parte dos representantes [políticos] atuais.


Imagem/Arquivo Pessoal

Você é filiada em algum partido político? Recebeu convite para se filiar e concorrer ao legislativo municipal em 2020?


Ainda não sou filiada, mas futuramente pretendo sim. Pois é muito importante ocuparmos todas as alas da sociedade, é mais do que necessário. Já pelo motivo que falei anteriormente, respondi na outra pergunta. Recebi dois convites, um até para ser candidata à vereadora, só que assim: seria muito bom se eu tivesse essa aptidão, mas no momento ainda não. Recebi convite dos dois lados, da vice-prefeita, e de Sheila do PT, mas não me filiei.


Quais são os “pensamentos de Mel” e também ações para o enfrentamento a Transfobia em Morro do Chapéu?


Humm... Pensamentos de Mell... Enfrentamento coerente; o convite a toda sociedade a ter respeito, empatia para com nossa população LGBT, TRANS E TODAS as outras minorias em situação de vulnerabilidade na nossa sociedade. Pensamentos que nos ajudam a fazer com que nós, principalmente mulheres TRANS, temos nosso valor e qualidades, como qualquer outra mulher e qualquer outro ser humano. Podemos sim ser felizes como todos devem ser e termos amor próprio com a gente, com nosso próprio corpo e a nossa vida. E estarmos no nosso caminho que é certo; livres de todos os preconceitos e complexos, que assim seja. Obrigada!


"Podemos sim ser felizes como todos devem ser", deseja Mellissa/Imagem: Sirlene Santos

_Nathan Rocha é repórter do Repare Quilombo

_Sirlene Santos colaborou nesta entrevista.

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