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“Eu tenho muito orgulho de ser quem eu sou”, afirma mulher trans de Morro do Chapéu

Atualizado: 1 de Jul de 2020

Ainda de acordo com Beatriz, a orientação sexual de alguém “não é doença e nem opção, porque ninguém gostaria de sofrer por querer”, explica.


Por Nathan Rocha


Beatriz Ferreira de Souza, 30 anos, mulher trans/Imagem: Arquivo Pessoal

“Aos seis anos de idade, eu já me sentia mulher”, conta Beatriz Ferreira de Souza, 30 anos, mulher trans, que nasceu em Irecê, morou na cidade de Presidente Dutra e há quatro anos reside em Morro do Chapéu.


Conforme Beatriz, toda a sua família é de Morro do Chapéu, e “todos moram na Caixa D’água”, explica. Ela conta que, no início, a mãe foi contra a sua identidade de gênero. “Mas agora ela me aceita”, relata Beatriz, que sempre teve o apoio de dona Isabel Ferreira de Souza, a sua avó materna, hoje, já falecida. “Tive apoio também do meu querido e amado pai”, afirma.



"Dou um belo sorriso e acabo deixando a situação a meu favor”, explica/Imagem: Arquivo Pessoal

Bya, como é conhecida por amigos e vizinhança, é técnica em informática. Atualmente, ela cursa o 3° ano técnico em enfermagem, “mas as aulas foram interrompidas devido à pandemia”, diz. A Jovem estudante também contou ao Repare Quilombo, que sempre lidou com a LGBTfobia, porém, nunca se deixou ser abatida pelo preconceito. “Eu sei que pessoas LGBT passam por esse tipo de constrangimento todos os dias, mas eu sei lidar com isso muito bem. Dou um belo sorriso e acabo deixando a situação a meu favor”, explica.


“Na verdade, [machistas e homofóbicos] são pessoas que ainda não têm as cabeças feitas para aceitarem o próximo. Não tem ninguém melhor que ninguém. Essas pessoas estão em um processo de lapidação”, conta a estudante.


Ainda de acordo com Beatriz, a orientação sexual de alguém “não é doença e nem opção, porque ninguém gostaria de sofrer por querer”, afirma. “Eu tenho muito orgulho de ser quem eu sou. Eu sou alegre, extrovertida, adoro sorrir e fazer amizades. Adoro ajudar o próximo”, revela Bya, que se sente muito grata pelo acolhimento dos morrenses.


Beatriz ao lado do seu pai durante a sua primeira formatura em 2013/Imagem: Arquivo Pessoal

Transgêneros são todos os indivíduos cuja identidade de gênero não corresponde ao seu sexo biológico. De maneira geral, essas pessoas sentem um grande desconforto com seu corpo por não se identificar com seu sexo biológico. Esse é o caso de Beatriz, que nasceu em um corpo masculino, entretanto, se reconhece como mulher.


Pessoas transexuais e transgêneros podem alterar seu nome no registro civil sem a necessidade de realização de cirurgia de mudança de sexo. Essa conquista para a comunidade LGBTQIA+, foi permitida pelo Supremo Tribunal Federal, em março de 2018. Nesse sentido, Beatriz começou fazer a alteração nos documentos. “Alguns, eu já consegui mudar, outros estão em transição”, se orgulha.


Ronivaldo Canaverde dos Santos, 24 anos, homossexual/Imagem: Arquivo Pessoal

“Gay e bem resolvido”.


É assim que o estudante de meio ambiente, Ronivaldo Canaverde dos Santos, 24 anos, se reconhece. Apoiado pela família, Canaverde se reconheceu homossexual aos 15 anos de idade, “quando dei o meu primeiro beijo”, diz.


“A minha família sabe de minha orientação. Para mim, foi tranquilo; foi tudo tão natural que nem deu tempo pra brigas e discussões. Só falei o que sentia, e com o passar dos dias foi tudo bem”, explica Ronivaldo, que não participa de nenhum coletivo ou movimento político contra a LGBTfobia, no município. Perguntado pela reportagem o porquê, ele explica:


“Nesses grupos, só entram quem eles querem. Eu não apoio nenhum movimento organizado LGBT; já tentei entrar, e não fui bem aceito. Deixei de mão e sigo meu caminho sozinho”, critica.


Canaverde também critica a falta de representatividade política LGBTQIA+ no Legislativo Municipal de Morro do Chapéu. “Até o momento, não vi nenhum político representando os LGBTs de Morro do Chapéu, e se tiver, fica nos bolinhos de sempre, com os da praça, como são chamados”, aponta.


Enfrentamento ao retrocesso


Ana Laura Reis Valois, 35 anos, psicóloga, é uma das idealizadoras do coletivo Empodera Morro, criado no Dia Nacional de Combate à Homofobia, no município de Morro do Chapéu. Conforme Ana Laura, o coletivo não tem vínculo político partidário, e foi criado “a partir da iniciativa de jovens morrenses interessados em discutir e participar da construção de ações e políticas públicas de inclusão social”, diz.


“Desde 2017 desenvolvemos debates, eventos e ações voltadas para o respeito à diversidade e o combate à homofobia, ao racismo, ao machismo e toda forma de opressão no nosso município”, relata Ana Laura, que explica ainda, que as mulheres lésbicas são vítimas de dois tipos de opressão: “o machismo e a LGBTfobia e, dentre diversas formas de violência, existe uma das mais cruéis, que é o estupro corretivo”, observa.


“O machismo faz os homens acreditarem que tem poder sobre os nossos corpos", afirma Ana Laura Valois/Imagem: Arquivo Pessoal

O crime de estupro corretivo citado por Ana Laura é praticado com motivação preconceituosa e ocorre quando homens estupram mulheres lésbicas como forma de ensiná-las a gostar de homens. “O machismo faz os homens acreditarem que tem poder sobre os nossos corpos, que uma mulher não pode gostar de mulheres, e se não gostam de homens é porque ‘não tiveram relações com um homem de verdade’. Todos já escutaram essa fala em algum momento”, afirma.


O crime de estupro possui uma pena que vai de 6 a 10 anos de reclusão, e em sendo o estupro corretivo, se aplica causa de aumento de pena de 1/3 a 2/3; além dessa prática criminosa prevista na Lei n° 13.718/2018, há também quem defenda as ideias da “cura gay”.


A suposta “cura gay”, terapia de reversão sexual, é uma violência defendida, principalmente, por políticos evangélicos fundamentalistas da extrema direita conservadora. Neste sentido, Ana Laura chama atenção para duas questões: a primeira, conforme a psicóloga, é que “não tem nenhum embasamento teórico e nem científico como a cura gay”, afirma.


A segunda questão pontuada por Ana Laura diz respeito a sua preocupação com o crescimento de representantes políticos da extrema direita conservadora nas próximas eleições municipais em Morro do Chapéu: “Com certeza teremos candidatos representando o retrocesso, a exclusão e o fim das políticas públicas que favorecem os que mais precisam. Infelizmente, temos por aqui, muita gente que gosta de fazer caridade, mas odeia políticas públicas”, critica.


Em 2019, 329 LGBT+ (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais) tiveram morte violenta no Brasil, vítimas da homotransfobia:


297 homicídios (90,3%) e 32 suicídios (9,7%), de acordo com o Grupo Gay da Bahia (GGB), que há 40 anos, coleta informações e divulga o Relatório Anual de Mortes Violentas de LGBT no Brasil.


Comparativamente aos anos anteriores, observou-se em 2019, surpreendente redução das mortes violentas de LGBT+. O ano recorde foi 2017, com 445 mortes, seguido em 2018 com 420, e agora, 329 mortes em 2019, registrando-se, portanto, uma diminuição de 26% em face de 2017 e 22% em relação a 2018.


A cada 26 horas um LGBT+ é assassinado ou se suicida vítima da LGBTfobia, o que confirma o Brasil como campeão mundial de crimes contra as minorias sexuais. Segundo agências internacionais de direitos humanos, matam-se muitíssimo mais homossexuais e transexuais no Brasil do que nos 13 países do Oriente e África onde persiste a pena de morte contra tal seguimento.


Quanto à faixa etária das vítimas, nos extremos foram computados 5,8% menores de 20 anos e 3,9% idosos com mais de 60, representando 90,7% os LGBT+ mortos na flor da idade, entre 20-50 anos, a mais jovem, com 14 anos, uma lésbica estudante encontrada morta com sinais de tortura numa praia de Paulista, (PE) e o mais velho, um aposentado de 69 anos, morto a facadas e tiros em Madaguaçu (PR).


Quanto à cor, apesar de se tratar de variável bastante descuidada nas matérias jornalísticas, o Grupo Gay da Bahia encontrou a mesma distribuição racial entre as vítimas, 50,2% de negros (pardos e pretos) para 49,7% de brancos.


Cores LGBTQIA+/Imagem meramente ilustrativa

Junho LGBTQIA+


28 de junho é o Dia do Orgulho LGBTI (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, queer e pessoas intersexuais), data celebrada e lembrada mundialmente, que marca um episódio ocorrido em Nova Iorque, em 1969. Naquele dia, as pessoas que frequentavam o bar Stonewall Inn, até hoje um local de frequência de gays, lésbicas e trans, reagiram a uma série de batidas policiais que eram realizadas ali com frequência.


O levante contra a perseguição da polícia às pessoas LGBTI durou mais de duas noites e, no ano seguinte, resultou na organização na 1° parada do orgulho LGBT, realizada no dia 1° de julho de 1970, para lembrar o episódio. Hoje, as Paradas do Orgulho LGBT acontecem em quase todos os países do mundo e em muitas cidades do Brasil ao longo do ano. [com informações de anistia.org.br].


_ Nathan Rocha é repórter do Repare Quilombo.



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