• Repare Quilombo

Falta emprego e sobra racismo: Jovem de Morro do Chapéu sente na pele e no bolso

Atualizado: 21 de Mai de 2020

Sem acesso a Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) e sem oportunidades de trabalho, Isabela encara um sério problema na busca por um bom emprego no comércio de Morro do Chapéu: a discriminação racial.


Por Nathan Rocha

Isabela dos Santos não vende acarajé desde quando começou a quarentena em Morro do Chapéu, dessa forma, a reportagem ficou impossibilitada de fazer o registro fotográfico no local de trabalho dela/Imagem: Arquivo pessoal

De antemão, é importante lembrar que o Brasil fechou o ano de 2019 com 38,363 milhões de trabalhadores informais. E quando se trata de desemprego, os dados revelam que a população negra não é maioria só entre os brasileiros, com 55,8% da população nacional. Neste sentido, negros e negras também são maioria entre desocupados, com 63,7% da população, de acordo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).


Diante desse cenário, a Sala do Empreendedor de Morro do Chapéu, afirma que, de forma presencial no ponto de apoio, entre o mês de abril a outubro de 2019, 46 trabalhadores, por conta própria, buscaram novas formas de conseguir uma renda mínima. Isabela dos Santos Araújo, 29 anos, vendedora de acarajé, também é trabalhadora informal, porém, não faz parte desse dado fornecido pela Sala do Empreendedor. Ela não tem o Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ), portanto, não é uma Microempreendedora Individual (MEI).


Imagem meramente ilustrativa/Arquivo Repare Quilombo

Sem acesso a Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) e sem oportunidades de trabalho, Isabela encara um sério problema na busca por um bom emprego no comércio de Morro do Chapéu: a discriminação racial. “Já sofri discriminação sim, pois, ‘você se sente tão mal ao entrar em um comércio e a pessoa lhe olhar dos pés à cabeça e comentar com outras pessoas e você perceber aquilo’, aí deixa a pessoa lá em baixo”, conta Isabela, que concluiu o Ensino Médio Normal (antigo magistério), em 2013. Dois anos depois, ela teve a primeira experiência de trabalho com carteira assinada na cidade de “São José do Rio Preto (SP), em uma padaria, como balconista”, lembra.


De volta a sua cidade natal, ela até tentou, mas nunca conseguiu um emprego formal. “Nossa... Entreguei currículo em muitas [escolas/empresas] e nenhuma tive resposta. Teve uma sapataria que entreguei na mão do dono: ‘você sabendo que tava precisando de funcionários’, simplesmente, só recebeu e colocou lá, outras lojas e mercado, entreguei na mão dos gerentes, também não tive resposta, daí chega um momento que ‘você se chateia e não leva mais’ porque com alguns dias ‘você passa em frente e ver funcionários novos’, aí fica a pergunta no ar: ‘por que não me chamaram nem pra uma entrevista? ’, porque no fundo, eu sei o porquê”, lamenta a jovem vendedora de acarajé.


Aliás, vender acarajé é a única opção de trabalho que Isabela tem para conseguir colocar o que comer na mesa e sustentar a sua filha de apenas sete meses de idade. A renda mínima de Isabela varia de 300 a R$ 350,00 por mês. Ela diz que depende também do movimento da rua, porque “tem dias que a rua tá boa, tem dias que o movimento é menos”, explica.


“Aprendi fazer acarajé com a minha mãe, sempre ia com ela pra praça e aprendi como fazer e a trabalhar”, recorda. Isabela conta também que já foi beneficiária do Programa Bolsa Família, porém, o benefício foi "cortado" em março de 2020. Período este que a reportagem entrou em contato com ela, pela primeira vez, para fazer esta entrevista.


Centro comercial de Morro do Chapéu, Av. Joel Modesto/Imagem: Nathan Rocha

“Esperamos né, que possa mudar; que possam surgir novas oportunidades e colocar mais pessoas negras no mercado de trabalho”


Morando num “cantinho” doado pela mãe, Isabela agradece pelo fato de ter seu próprio cômodo para não precisar pagar aluguel “nessa crise que estamos passando”, ressalta. Diante dessa situação, Isabela critica as poucas oportunidades de emprego em Morro do Chapéu. “A realidade da nossa cidade é um caso sério, eles querem pagar o mínimo, sem contar que muitas vezes não dá oportunidade. Muitos só precisam de uma chance e não têm. Eu mesma, até hoje, não tive”, lamenta.


A realidade da morrense Camila Alves de Jesus, 30 anos, não é tão diferente das dificuldades vividas por Isabela, quando o assunto é a falta de emprego. Desempregada há cinco anos, Camila concluiu o ensino médio em 2011, e, desde então, nunca teve a sua carteira de trabalho assinada.


Camila conta que já entregou currículo em várias lojas do comércio local, porém, nunca teve resposta. Ela acredita que a discriminação racial pode sim ser um fator decisivo na hora da contratação, entretanto, ela explica. “Não passei por isso, não que eu perceba, mas existe”, diz Camila. Ainda em relação a uma boa contratação, tanto no setor público ou privado de Morro do Chapéu, Camila chama atenção para a boa influência que as pessoas precisariam ter. “Se tiver indicação é mais fácil”, afirma.


Perguntada se pensa em mudar de cidade para conseguir melhores condições de trabalho ou até mesmo de estudos, Camila hesita. “Se eu não tivesse uma filha, sim, já teria ido embora daqui”, explica. A filha dela tem seis anos de idade, e ambas moram na casa da mãe de Camila, na sede do município.


A única renda fixa de Camila vem do Programa Bolsa Família. Ela informou a reportagem o valor recebido, porém, preferiu que o Repare Quilombo não publicasse a quantia. “Melhor não falar”, pediu.


Olhares racistas



Gabriel Oliveira, 24 anos, advogado/Imagem: Arquivo Pessoal

“Trabalhar na área jurídica; área majoritariamente dominada por brancos é ter que provar todos os dias a minha capacidade e, claro, resistir aos olhares racistas que enfrento quase que diariamente”, desabafa Gabriel de Oliveira Brito, 24 anos, jovem quilombola e advogado.


Natural de Morro do Chapéu, nascido na comunidade quilombola de Velame, Gabriel, atua na área do Direito Previdenciário no município de Cafarnaum, há alguns meses. Ele conta que, desde quando começou a trabalhar no escritório de advocacia na cidade vizinha, sempre percebeu os olhares duvidosos em sua direção. “Observo a forma que alguns clientes olham para mim, tipo, ‘não acreditando que eu seja advogado’. Esse imaginário racista que está presente em cada ser humano coloca a pessoa preta num espaço subalterno e com profissões já designadas”, relata Gabriel.


Em relação a casos de discriminação racial, sobretudo, em locais de trabalho, Gabriel alerta que a vítima deve se deslocar imediatamente para uma delegacia, e lá dar início ao procedimento de denúncia. “Caso perceba que o trâmite não esteja saindo da forma que imaginava, a vítima pode ir direto ao Ministério Público”, explica o advogado, que também chama atenção para casos de quando a própria empresa pode ser omissa ao ato racista praticado por colegas de trabalho, por clientes ou por pessoas externas, de modo geral. “Nesse caso, a empresa pode e deve ser penalizada. Ela poderá ser processada junto com o agressor. Pois o crime fora praticado no local de trabalho”, afirma.


Vale ressaltar que o Ministério Público da Bahia lançou, em 2018, o Aplicativo “Mapa do Racismo”. Por meio do app, é possível fazer o registro de denúncias anônimas de discriminação racial, intolerância religiosa, injúria racial e racismo institucional.


Olhares históricos


Flávia Oliveira, 32 anos, professora de História/Imagem: Arquivo Pessoal

Tardiamente, o Brasil foi o último país da América Latina a abolir a escravidão. Depois de três séculos de trabalho forçado, de muita pressão popular e de forças políticas contrárias, em 13 de maio de 1888, foi sancionada a Lei Áurea. Nesse sentido, todas as vivências atuais e profissões já designadas à população negra, tem forte relação com o processo histórico de escravidão no Brasil.


A professora de História, Flávia Oliveira, 32 anos, explica que, tanto homens quanto mulheres negras, forçadamente, “desempenharam funções múltiplas” ao longo do período de permissão da escravidão negra no Brasil. Entretanto, Flávia diz também que, “narrativas atuais mostram que negros eram mais valiosos quando já traziam a marca de uma especialização”, ou seja, quando tinham habilidades em atividades relacionadas ao “garimpo, carpintaria, nas cozinhas da casa grande e nos cuidados maternos dos filhos dos senhores”, descreve a professora.


“O preconceito racial no Brasil não pode ser compreendido sem o conhecimento do processo de construção da sociedade brasileira”


Ainda de acordo com a professora de História, “as tradições [racistas] permanecem com mais força” em cidades menores, como Morro do Chapéu, pelo fato da própria população manter “relações mais próximas”, o que velaria ainda mais o racismo. Isso, porque, conforme Flávia, “os debates sobre alguns assuntos tardam a chegar”, diz.


E quando se trata sobre as chances de estudo da população jovem e negra em cidades também como Morro do Chapéu, mesmo nos dias atuais, Flávia é enfática ao dizer: “No interior ainda é mais complicado prosseguir nos estudos, o mercado de trabalho é menor, relações trabalhistas ainda são tratadas com a palavra ou com os famosos arranjos políticos”, afirma.


Dessa forma, quando os poderes públicos não oportunizam o acesso de jovens de baixa vulnerabilidade social ao ensino superior público, Flávia, lamentavelmente, aponta caminhos difíceis e quase sem saídas para esses jovens. “Logo o filho de um trabalhador informal tem uma maior probabilidade de continuar no mesmo rumo do pai ou aceitar a condição de trabalhar em determinado local, mesmo em péssimas condições, por ser única alternativa e temer ficar malvisto na cidade”, conclui.


Olhares (dados) invisíveis


Tarcísio Coutinho, 48 anos, técnico em Informações Geográficas e Estatísticas, contou à reportagem, que dados do Cadastro Central de Empresas (Cempre), por exemplo, “não trazem a variável cor ou raça”, relata. Dessa forma, conforme Coutinho, não é possível saber o dado de pessoas negras trabalhando com carteira assinada no comércio de Morro do Chapéu.


A novidade, ainda de acordo com Tarcísio, é que, em breve, toda essa invisibilidade de dados poderá ter fim. “Com o Censo 2021, teremos dados atualizados de trabalho e rendimento por cor ou raça para o município e para os quilombolas, especificamente”, encaminha o técnico, via aplicativo de mensagem.


Consultada pela reportagem, Flora Maria Pereira, 44 anos, advogada, ex-técnica de referência do Juspopuli - Escritório de Direitos Humanos e, especialista em Gestão de Políticas Públicas em Gênero e Raça, explica de qual forma dados sobre a população negra no comércio de Morro do Chapéu poderiam ser gerados. “Só por meio de pesquisas oficiais e que acabam sendo defasadas, já que não são atualizadas anualmente. Para eles [CDL/outros órgãos] terem a informação, cada empresa ou comércio deveria informá-los sobre a contratação: quantas mulheres, quantas mulheres negras, quantos homens, quantos homens negros, quantos jovens; para eles poderem fazer uma compilação e fornecer essas informações”, contextualiza a advogada.


Tarcísio Coutinho e Flora Maria Pereira foram consultados, sobretudo, a fim de a reportagem entender o porquê da invisibilidade de dados a respeito de trabalhadores (as) negros (as) formais no comércio local, já que órgãos como a CDL e Sala do Empreendedor e até mesmo o próprio IBGE não disponibilizam essas informações.

* Nathan Rocha é repórter do Repare Quilombo

* Sirlene Santos colaborou nesta reportagem

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