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Jogo político – Episódio I: A nova peça

Atualizado: Jan 1

Ainda durante o período eleitoral, o vereador do Velame fez questão de dizer que não era “candidato de Dr. Claudio (PSL), da professora Sheila (PT), de Antônia Souto (Patriota), e nem de Juliana Araújo (PL)”, recorda Luciano Lula.

Por Nathan Rocha

O município de Morro do Chapéu elegeu, em 2020, o primeiro vereador de uma Comunidade Quilombola reconhecida pela Fundação Palmares/Imagem: Arquivo Pessoal

Se fizermos uma simples e rápida pesquisa em um dos vários dicionários online, que seja, a respeito do significado de política, a resposta será quase sempre a mesma: arte ou ciência de governar. Já arte, significa habilidade ou disposição dirigida para a execução de uma finalidade prática ou teórica.

Neste sentido, os políticos que concorreram às eleições municipais de 2020, tiveram que lidar com um pouco mais de habilidade. Uma delas, a dificuldade de realizar uma campanha eleitoral em plena pandemia mundial: o coronavírus. Outra habilidade um tanto complexa, no caso dos políticos de Morro do Chapéu, mais especificamente para quem concorreu a uma vaga de vereador ou vereadora, foi a de se destacar politicamente entre os 90 candidatos que disputaram o pleito eleitoral.

Atualmente, a Câmara Municipal de Morro do Chapéu é composta por 13 vereadores. Com base nesse quantitativo, a conta é simples com relação a gênero; as eleições locais revelaram o seguinte resultado: quatro mulheres eleitas, com um número de homens eleitos bem mais expressivo, nove.


Entretanto, esse não foi o único resultado a se observar. Acontece que o município de Morro do Chapéu elegeu, em 2020, o primeiro vereador de uma Comunidade Quilombola reconhecida pela Fundação Palmares. Trata-se de Luciano Lula (PC do B), mais conhecido popularmente, como Lula do Velame.


Outro dado pertinente e divulgado recentemente pela Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), mostra que, na maioria dos Estados em que a entidade atua, cerca de 500 quilombolas se dispuseram a lutar por uma vaga tanto no executivo quanto no legislativo, nas últimas eleições.


Desse total, foram 57 vereadores quilombolas eleitos no Brasil. Na Bahia, oito quilombolas irão dar início à vereança em 2021.


Movimento sindical em Morro do Chapéu, 2018/Imagem: Arquivo Pessoal

Partida


Certificada como comunidade quilombola em 19 de abril de 2005, pela Fundação Palmares, Velame localiza-se a 52 km da sede de Morro do Chapéu, na região oeste do município, conhecida também como “região do sertão”. É lá que Luciano Bernardo de Brito, 44 anos, mora.

Agricultor familiar, dirigente sindical e militante do movimento negro local, Lula do Velame é pai de quatro filhos e de uma filha. Filiado ao Partido Comunista do Brasil (PC do B), desde 2008, Luciano Lula começou a participar de campanhas políticas em Morro do Chapéu, a partir dessa data.

Feira da Agricultura Familiar da Comunidade Quilombola de Ouricuri II/Imagem: Arquivo Pessoal

Contudo, conforme apurou a nossa reportagem, o vereador quilombola morrense já participava de ações voltadas a políticas públicas desde o início da juventude, quando assumiu, pela primeira vez, a presidência da Associação Comunitária dos Produtores de Velame (ASCOMPREV), aos 20 anos de idade. “Eu saí da minha comunidade muito cedo pra cursar o ensino médio, em Cafarnaum. Depois, eu retornei para contribuir com meu conhecimento para a minha comunidade, e a partir daí assumi a presidência da associação”, lembra Lula.


Candidato a vereador pela segunda vez, Luciano Lula conta que enfrentar a pandemia do coronavírus nas últimas eleições municipais foi um dos principais problemas sentido por ele, principalmente pelo fato de fazer uma campanha de base, resultante dos muitos anos de militância política, que carece da realização de encontros presenciais. “Foi uma campanha complicada e difícil, porque eu sempre fui muito de atuar no campo, nas lidas com os trabalhadores, mas com essa pandemia, eu me senti impossibilitado de promover essas ações junto às organizações comunitárias”, diz. Além disso, por ter dificuldade com a utilização das novas mídias sociais, Lula também se limitou a fazer uma campanha digital.


Ainda durante o período eleitoral, o vereador do Velame fez questão de dizer que não era “candidato de Dr. Claudio (PSL), da professora Sheila (PT), de Antônia Souto (Patriota), e nem de Juliana Araújo (PL)”, recorda Luciano Lula. Porém, ele reconhece que se identificou mais com o projeto político da professora Sheila, que foi candidata à prefeita. “Pelo fato dela ser militante do Partido dos Trabalhadores, que vem dialogando muito bem com as minorias”, justifica o vereador quilombola que, afirma, ainda, que fará um debate independente na Câmara, ouvindo as categorias, os trabalhadores e população em geral. “Não serei oposição para fazer aquela oposição espalhafatosa, com denúncias sem ter argumentos ou causas comprovatórias, mas também não direi amém a tudo que a gestão espera ouvir”, diz Luciano Lula.


Com um histórico de luta relacionada ao movimento dos produtores rurais, a reforma agrária será uma das principais bandeiras defendidas pelo comunista na Câmara Municipal de Morro do Chapéu. “Quando se fala de reforma agrária, você vai muito mais além; você fala de espaço de sobrevivência e de formação de sujeitos. Então, a reforma agrária está ligada também as causas dos quilombos, até porque é um direito que as comunidades quilombolas possam ter seus espaços de produção”, explica o vereador eleito.


Cadeia de Peões


Aliados e torcida para um bom mandato político de vereador, Luciano Lula tem, e bem críticos.


“Infelizmente, o legislativo de Morro do Chapéu tem um histórico de fazer conchavo, chantagens e barganha”.


A frase foi pronunciada pelo professor da rede municipal de ensino, Moisés Brito, 56 anos, em entrevista ao Repare Quilombo para esta reportagem, quando perguntado sobre uma possível avaliação da casa legislativa morrense: “a futura Câmara é uma incógnita”, complementa o professor.


Manifestação popular de apoio na Comunidade de Velame, após Luciano Lula ser eleito vereador, em 2020/Imagem: Reprodução

Moisés é morador do povoado de Velame, e diz que a comunidade tem hoje a “sensação de liberdade”, por ter um negro quilombola da localidade ocupando uma cadeira nas tomadas de decisões do poder legislativo local, em 2021. “Ainda mais quando se trata de um líder comunitário que sempre trabalhou para melhorar a qualidade de vida, resgatando a dignidade do povo deste município com atenção especial as comunidades remanescentes de quilombo”, explica o conterrâneo de Lula.

Conhecedor de perto do histórico político de Luciano Lula, Moisés acredita que o novo vereador irá cumprir realmente com o papel de legislador. “Perfil ele tem. A experiência vivida em associações e sindicatos é uma excelente bagagem. No meu ponto de vista, ele tem que fazer um trabalho responsável, coerente, com projetos que melhorem a vida de quem vive no município, independente de ser ou não oposição”, aconselha o especialista em Arte e Educação.

Assim como Moisés, Eliana Neri, 32 anos, professora e moradora há 20 anos da Comunidade Quilombola de Queimada Nova, também localizada na região oeste do município, não tem uma boa impressão da Câmara de vereadores de Morro do Chapéu. Para ela, o parlamento municipal “está encharcado de ‘políticos’ que só querem usufruir do cargo que lhes foram imposto”, lamenta.

Plenário da Câmara Municipal de Vereadores de Morro do Chapéu/Imagem: Redes Sociais da Câmara

Eliana, que é membro da Associação de Mulheres Quilombolas em Ação Dandara dos Palmares (AMQADP), e militante do movimento negro e da violência contra a mulher, acredita que é necessário investir mais em políticas públicas de educação. Ela também aposta em “mais benefícios para nosso povo negro, sofrido”, diz Eliana, cheia de expectativa em relação ao futuro trabalho do vereador quilombola.


Eliana Neri, 32 anos, militante do movimento negro da Comunidade Quilombola de Queimada Nova/Imagem: Arquivo Pessoal

"Creio que Lula não será um vereador de 'Copa do Mundo'”.

A militante da associação Dandara dos Palmares expõe que está cansada de vereadores que só aparecem de quatro em quatro anos, para pedir o voto. Para ela, a região do sertão agora sim terá representação política. “Não tenho dúvidas de que o nosso sertão estava necessitado de um vereador que conhecesse a nossa realidade, e, principalmente, que se reconhece como um quilombola e sertanejo. Porque falar é bonito, mas sentir na pele é bem diferente”, conclui Neri.


_Nathan Rocha é repórter do Repare Quilombo.

_Sirlene Santos colaborou nesta reportagem.

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