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Jogo político – Episódio II: Mobilidade de uma peça

Entretanto, conforme o sociólogo e professor da UNEB, Fábio Nogueira, a eleição de Luciano Lula (PC do B), por sua vez, se dá em contexto completamente diferente do de Francisco Dias Coelho e Natalino Brito.


Por Nathan Rocha

Professora Sheila (PT), Luciano Lula (PC do B), e o professor Fábio Nogueira (PSOL)/Imagens: Arquivo Pessoal/Edição: Repare Quilombo - 2021.

Saber movimentar-se politicamente antes ou pós-pleito eleitoral é uma estratégia crucial para sobreviver ao jogo, ou melhor, ao processo político. Diante disso, é necessário salientar que de 1909, quando o Coronel Francisco Dias Coelho foi eleito ao cargo de intendente no município de Morro do Chapéu, até 2020, algumas coisas mudaram na estrutura política local.


É possível ressalta ainda que, durante este período, Natalino Dias de Brito, homem negro, foi eleito vereador por três vezes em Morro do Chapéu: em 21 de dezembro de 1947, 03 de outubro de 1950 e em 15 de novembro de 1972. Entretanto, conforme o sociólogo e professor da UNEB, Fábio Nogueira, a eleição de Luciano Lula (PC do B), por sua vez, se dá em contexto completamente diferente do de Francisco Dias Coelho e Natalino Brito.

Registro histórico de Natalino Brito (10.04.1917 – 01.05.1986)/Imagem retirada do site: www.adourado.com.br

Nogueira, que é presidente estadual do PSOL, na Bahia, explica que a aprovação da proporcionalidade na distribuição dos recursos do Fundo Eleitoral entre candidaturas negras e brancas, pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com certeza, irá contribuir para uma maior presença negra na política. “É o primeiro mecanismo concreto para garantir equidade racial e tornar o jogo político menos desigual, já que as condições de disputa entre candidaturas negras e brancas, por uma série de motivos, não são as mesmas”, diz.


Na cidade de Morro do Chapéu, entre homens e mulheres, nove pessoas de primeiro mandato, por exemplo, tomaram posse e assumiram os seus cargos de vereadores na sexta-feira, dia 1° de janeiro de 2021. Para o professor licenciado em Letras, Fernando Macedo, 26 anos, essa renovação na Câmara “é um recado da população”, diz, contudo, ele ressalta: “se isso de fato representa uma mudança para melhor, acredito que só o tempo poderá nos responder”, pontua o professor, que é eleitor do município morrense.


O debate que deve ser feito, portanto, é: para que servem Prefeituras e Câmaras Municipais?


Apesar desse aspecto de mudança descrito por Fernando, é importante lembrar que a história política local é marcada pelos resquícios do coronelismo e alternância de poder por famílias brancas da velha política. “Isso tem relação com a estrutura e organização do poder político no território baiano”, conta o sociólogo Fábio Nogueira, que afirma ainda, que “o poder das oligarquias é branco e masculino. O mando é branco e masculino. Por isso quando falamos em democracia entendemos que é necessário descolonizar nossas casas legislativas e prefeituras”, explica.


Luciano Lula ao lado do seu filho Gabriel de Oliveira, durante a cerimônia de posse, em 1° de janeiro de 2021/Imagem: Arquivo Pessoal

Em 13° lugar no ranking da última votação e eleito com 404 votos, o que representa 2,10% dos votos válidos, Luciano Lula (PC do B), diz que a sua votação foi satisfatória. “Eu não consegui chegar ao longo dos últimos 120 dias pra eleição, em 200 habitações. Isso significa que eu consegui ter êxito com relação ao proporcional da minha votação”, calcula o vereador. Atrelado a isso, Fábio Nogueira explica que, “de uma maneira geral, o que define o sucesso ou não eleitoral são as prioridades partidárias”, conta.

“As comunidades quilombolas lutam com os meios que têm para serem reconhecidas e preservadas. Por isso é muito importante à eleição de parlamentares quilombolas, pois contribuirá positivamente para o avanço desta luta tão importante para nossa democracia”, explica o presidente estadual do PSOL, a respeito da importância da representação quilombola em espaços legislativos.


Arca de Noé


Com um pouco mais de experiência política, e camarada, que luta ladeada pelas mesmas causas sociais que Luciano Lula, a professora Sheila (PT), deixa a Câmara Municipal de Morro do Chapéu após dois mandatos consecutivos. Conforme a professora Sheila, “foi tempo suficiente para entender a importância de se eleger representantes nascidos e criados por uma causa coletiva”, diz.


Em conversa com a ex-candidata a prefeita pelo município morrense nas eleições do ano passado, Sheila pôde explicar que a maior dificuldade em legislar para os povos de comunidades tradicionais parte, sobretudo, de dentro da própria casa legislativa; da relação submissa ao poder executivo, impregnada na maioria dos vereadores. “O maior desafio é convencer os pares sobre projetos que garantam acesso as políticas públicas voltadas aos povos originários”, afirma a petista, que chama atenção para essa dificuldade, que Lula poderá enfrentar:


“A subserviência ao executivo da chamada ‘bancada de situação’ será com certeza um dos maiores desafios para um mandato representativo como o do camarada Luciano de Brito, assim como foi com o Mandato Coletivo”, garante Sheila. Neste sentido, existe outro aspecto complexo, que ronda a política local e que também foi levantado por Sheila.

Professora Sheila, ex-vereadora de Morro do Chapéu/Imagem: Ian

De acordo com a ex-vereadora, todo mandato que não passa pela mesa dos representantes da velha política de Morro do Chapéu, sempre será incômodo, mas ela é bastante enfática ao dizer: “Quem não deve se incomodar é Lula”, afirma. Sheila ainda explica que o modus operandi da velha política morrense é o “de sufocar as vozes das minorias ao invés de oportunizar e se fazer ouvir todas as vozes; oferecer privilégios, ao invés de governar para todos e todas; concentrar oportunidades ao invés de distribuí-las”, lamenta.


Afroíndia, como Sheila se declara, ela diz que se sente representada por Lula. De acordo com a professora, existe um dialogo constante dela com o vereador quilombola, e estar à disposição para ajudá-lo. “Estou aqui na trincheira para fortalecer o avanço dele. Ele se permite, quer acertar! Isso nos enche de orgulho e esperança”, conclui.


“O racismo opera em diversos níveis”


“O principal deles é a desqualificação e descarte dos projetos eleitorais de negros e negras. Eles sempre vão para o final da fila quando se trata de definir as prioridades eleitorais”, afirma Fábio Nogueira. É possível observar que essa explicação do sociólogo, de como o racismo opera na política, por exemplo, se assemelha com a experiência vivida e citada pela ex-vereadora Sheila, em Morro do Chapéu, quando ela relata a respeito de se votar em projetos que realmente beneficiam os povos originários.


_Nathan Rocha é repórter do Repare Quilombo.

_Sirlene Santos colaborou nesta reportagem.


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