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Moda preta afro-brasileira e sob medida: conheça a Saluta

Sem padrão ou tamanhos limitados, a saluta é uma oposição à indústria, porém, conforme idealizadora, a marca não tem a visão de se tornar uma grande empresa.


Por Nathan Rocha

Gisele Santana, 17 anos, moradora de Morro do Chapéu, é apaixonada por turbantes/Imagem: arquivo pessoal

O percentual de homens empreendedores no Brasil em 2019 é de 56,5%, e estar acima do percentual de mulheres, com 43,5%. Em números absolutos, estima-se que haja 53,5 milhões de brasileiros entre 18 a 64 anos à frente de alguma atividade empreendedora. Esses dados são do relatório executivo sobre empreendedorismo no Brasil, divulgado pela pesquisa GEM.

Ainda de acordo com o relatório, do ano passado, esta quantidade de brasileiros está envolvida na criação de novo empreendimento, consolidando um novo negócio ou realizando esforços para manter um empreendimento já estabelecido. Diante deste cenário, e apesar de ter ganhado corpo em 2020, é possível incluir mais um novo empreendimento: a Saluta.

Fonte: GEM Brasil/2019

Loja virtual de acessórios e roupas da moda afro-brasileira, a saluta é uma marca de conceito ancestral, feita sob medida; é regional e local, porque é idealizada e administrada por três mulheres de Jacobina e de Morro do Chapéu. “Viver bem, sem faltar nada” é outro conceito expresso, que revela a representação da identidade afro, aliás, este conceito é o significado da palavra saluta, da língua angolana Kimbundo, de origem Bantu.

A nossa equipe de reportagem conversou com Andréa da Silva, 39 anos, que é uma das criadoras da marca saluta. Andréa é sócia de Lúcia Fabiana, sua irmã, ambas moradoras de Jacobina; elas também são amigas e sócias de Sirlene Santos, de Morro do Chapéu – Bahia. Além de idealizadora do projeto, Andréa também é responsável pela confecção de estampas em camisas, bolsas, canecas e copos. Ela conta que a confecção é feita de forma artesanal, com tecidos africanos.


Ankara e capulana, que são mistos, em poliéster e algodão, são exemplos desses tecidos utilizados pela saluta. “Pesquisando, entendemos que as pessoas de poder aquisitivo menor, em muitos países africanos, também não usam somente tecidos de algodão, mas estampas sempre cheias de significado; percebam que os adinkras, estão sempre presente nas estampas, as cores vibrantes que revelam, realçam a beleza de cada um”, explica Andréa.

Andréa da Silva, 39 anos, criadora da marca saluta/Imagem: arquivo pessoal

Sem padrão ou tamanhos limitados, a saluta é uma oposição à indústria, porém, conforme Andréa, a marca não tem a visão de se tornar uma grande empresa. “Nossa intenção é levar as pessoas que se sentem atravessadas pelo continente mãe, a possibilidade de vesti-las”, conta.

A empreendedora revela ainda que a saluta é uma moda preta porque é feita por mulheres pretas e é acessível para outras mulheres pretas. Além disso, Andréa diz que o corpo é político e que a roupa é uma extensão do corpo humano. “Ao cruzar na rua com alguém que na camisa está escrito, por exemplo: "Lula, livre", a gente logo sorri, ou, é xingado; assim, também, como o uso do turbante; logo vem aquele olhar dos incomodados, porque remete a nossa religiosidade”, elucida.

Vestido tiye/Imagem: Saluta

Peças como turbantes e colares são bastante procurados na loja virtual, que tem os pedidas feitos através de aplicativo de mensagem ou no endereço @saluta_mab. “Ultimamente as camisas, com imagens, estampas de identidade negra têm feito muito sucesso”, conclui Andréa.

Colar lupita/Imagem: Saluta

“Gosto de ter meu próprio estilo, quebrar os padrões um pouco”


Apesar de ter começado a vestir e entender a moda afro como parte importante na composição de sua identidade negra, Gisele Santana, 17 anos, é apaixonada por turbantes. Entretanto, a estudante de Morro do Chapéu precisa contar um pouco com a criatividade na hora de montar o look:

“Eu costumo usar mais acessórios, mas o turbante em si, eu nunca encontrei pronto aqui na minha cidade, sempre faço com algum pano grande que tenho aqui e dar certo”, conta Gisele, que se refere à falta de turbantes ou tecidos africanos em lojas convencionais do comércio físico local.



Print/redes sociais de Gisele

Gisele fala sobre inspiração e representatividade negra. Ela acredita que “algumas meninas usam outras meninas para se inspirarem”, diz. Dessa forma, Gisele, que também é blogueira, utiliza as suas redes sociais para publicar fotos e vídeos, ensinando a como fazer amarração com o turbante. “É aceitação, é uma moda bonita e mais econômica sim”, conclui Gisele.


Identidade visual da marca saluta

_Nathan Rocha é repórter do Repare Quilombo.



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