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“Muitos de fora têm um péssimo olhar”, diz “André da Igreja” sobre o bairro da Caixa D’água

Entrevista:

“O meu bairro reagiu de uma forma muito positiva; confesso que fiquei muito agraciado pelo carinho, amor e atenção”, conta Carlos André Dias, eleito conselheiro tutelar com 912 votos.


Por Nathan Rocha


Carlos André Dias, 27 anos, conselheiro tutelar/Imagem: Arquivo pessoal

Carismático, brincalhão, sorridente.


"Quando passa nas ruas, costuma acenar para todo mundo". É dessa forma que Carlos André Dias de Oliveira, 27 anos, é descrito por amigos ou lembrado por moradores de Morro do Chapéu.


Dessa vez, a equipe do Repare Quilombo não precisou ir tão longe; bastou, apenas, reparar em um detalhe bastante importante de alguém, que mora ao lado, no bairro vizinho que tem, pela primeira vez, um representante local no colegiado do Conselho Tutelar do município.


“André da Igreja”, como é mais conhecido, mora na Caixa D’água desde os seus 10 anos de idade. Cresceu e convive até os dias de hoje com a realidade de um bairro que, segundo ele, “muitos de fora têm um péssimo olhar e uma visão crítica a respeito dos nossos moradores e acontecimentos que procedem por aqui”, diz.


Nesta entrevista, Carlos André conta também se teve apoio da Igreja Católica para se eleger conselheiro tutelar; se já sofreu algum tipo de ameaça por conta do trabalho, e como faz para trabalhar em meio ao isolamento social imposto pela pandemia do novo coronavírus.


Confira abaixo a entrevista:


O que lhe motivou a querer ser conselheiro tutelar?


Bom, eu fui assim, muito por indicação, sabe? Me indicaram, me falaram a respeito do concurso e do processo seletivo. De início, eu não quis, porque eu falei que não teria nada a ver comigo, mas assim, as pessoas continuaram a me falar, a querer que eu concorresse, que eu fosse atrás e que eu lutasse para conseguir chegar lá. Então, eu pensei, refleti, busquei em Deus, orei muito a respeito da situação e decidi concorrer a uma vaga no Conselho Tutelar. A partir daí, eu acreditei no meu potencial; acreditei que eu poderia fazer algo a mais, poderia estar ali e lutar a favor dos nossos pequenos; trabalhar em prol do nosso público-alvo: as crianças e adolescentes. E, então, esse foi um dos principais fatores que me levou a concorrer uma vaga como conselheiro tutelar.


Você foi eleito com 912 votos, e ficou em segundo lugar. Você esperava essa votação?


Assim, eu não vou falar que esperava essa quantidade, porque, eu, realmente não esperava. Entende? Eu sabia, sabia que chegaria até o final, sabia que conseguiria uma das vagas, mas assim, eu realmente não esperava ficar em segundo lugar. Esperava chegar ali em terceiro, quarto, até o quinto lugar. Como eu sempre confiei na promessa do Senhor, quando eu orava para concorrer, ele afirmava ao meu coração que eu conseguiria chegar lá, mas ficar em segundo lugar não fazia parte dos meus planos [risos]. Então, até para mim, também foi uma grande surpresa essa quantidade de votos.


Card de divulgação da campanha de "André da Igreja" ao Conselho Tutelar de Morro do Chapéu, em 2019

“André da Igreja” foi o nome que você usou para concorrer ao cargo de conselheiro tutelar. Você é uma pessoa religiosa? Teve apoio da Igreja para ganhar as eleições?


Sim, me considero uma pessoa religiosa. Já tem 10 anos, na verdade, que estou na caminhada cristã. Sou católico e frequento alguns grupos pastorais e movimentos da nossa paróquia. Assim, da igreja, eu recebi sim apoio, só que tivemos seis candidatos da nossa igreja. Nós não pudemos fazer propaganda na igreja, não, porque se o padre abraçasse a um, ele teria que abraçar a todos. Mas assim, graças a Deus, ele divulgou bem todo processo eletivo durante os eventos ocorridos na paróquia, pediu muito que a comunidade se fizesse presente. E é isso, graças a Deus tive o apoio dos nossos irmãos católicos e um grande percentual puderam votar em mim, votos estes que foram de uma extrema importância para eu poder concorrer a uma vaga no colegiado, e, por isso, que eu coloquei né, "André da igreja".


É a primeira vez que o bairro da Caixa D’água tem um representante no Conselho Tutelar? E como o seu bairro reagiu a sua vitória?


Nosso bairro já teve, em certos momentos, outras pessoas que concorreram a uma vaga no Conselho Tutelar; o nosso irmão Gilmar, mais conhecido como Orgânico grafiteiro, ele já concorreu em outros processos eletivo, não chegou a fazer parte do colegiado, mas ficou como suplente. E hoje, graças a Deus, nós temos uma pessoa nos representando lá dentro no atual colegiado. O meu bairro reagiu de uma forma muito positiva, confesso que fiquei muito agraciado pelo carinho, amor e atenção que todos tiveram para comigo durante esse processo de escolha para conselheiro tutelar. Falo que fui o mais votado não apenas aqui na sessão do nosso bairro, mas em outras seções também da cidade. E encerro falando que essa é uma vitória não apenas para mim, e para minha família, mas é uma vitória e engrandecimento também para nossa comunidade, para o nosso bairro, que muitos de fora têm um péssimo olhar para nossa comunidade, com uma visão crítica a respeito dos nossos moradores e acontecimentos que procedem por aqui. Mas assim, somos um bairro de paz, um bairro que luta da mesma forma que os outros lutam por melhorias coletivas para os seus moradores, nós também o fazemos.



"Ser conselheiro tutelar em uma cidade pequena é bom e ruim ao mesmo tempo", diz o conselheiro tutelar/Imagem: Arquivo pessoal

Depois de cinco meses de experiência no trabalho, conta para a gente: como é ser conselheiro tutelar numa cidade de interior onde quase todo mundo sabe o endereço da sua casa?


Ser conselheiro tutelar em uma cidade pequena é bom e ruim ao mesmo tempo. Porque, assim: ‘você acaba criando vínculo, você conhece muitas pessoas e, em determinados momentos, as pessoas podem até estar lhe procurando em sua residência’. Já teve casos de pessoas virem me procurar aqui em minha casa, mas eu já relevo isso, sabe, quando vejo que é realmente uma extrema necessidade, ou extrema urgência, eu acabo sim recebendo a pessoa, converso, passo a orientação que me é cabível, que sei que posso também passar. Afinal de contas, nós trabalhamos em colegiado, em momento algum uma decisão é tomada por apenas um conselheiro, mas se for um caso de ser passada só uma pequena orientação, eu acabo sim passando, e não levo para o lado pessoal e, assim, até o exato momento, está sendo muito tranquilo.


Você já recebeu algum tipo de ameaça por conta do seu trabalho?


Não, graças a Deus nunca cheguei a ser ameaçado por conta do meu trabalho. Sempre que saio todos os dias, invoco a presença de Jesus, do Espírito Santo e vou pedindo o revestimento dele. Que ele me guarde e me proteja em todo o meu dia, que todas as minhas atitudes e ações sejam tomadas por ação do Espírito Santo, e que ele vá me guardando de tudo quanto for ruim e indesejado para mim.


Estamos em maio. E o dia 18, por exemplo, é a data que se reflete sobre o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual Infantil. O que o Conselho Tutelar de Morro Chapéu fez para dar visibilidade a essa campanha?


Em relação ao Faça Bonito, tivemos o adesivaço nas barreiras de proteção da cidade, tivemos lives com os profissionais do CT e do CREAS, tivemos entrevista na rádio Diamantina. E também apostamos muito nas divulgações pelas redes sociais. E essas foram às formas que encontramos para trabalhar durante esse período com a Campanha do Faça Bonito 2020. Durante esse momento crítico, e a respeito do Maio Laranja, nós não paramos apenas no 18 de Maio, nós queremos estender essa data, estender os dias que nós podemos combater ao abuso e exploração sexual infantil, pois todos os dias a cada 10 minutos, praticamente, uma criança é violentada, uma criança é molestada e, assim, a gente não quer ficar apenas no 18 de Maio, mas a gente quer que todos os dias sejam 18 de Maio, que todos os dias nós trabalhemos em prol dessa grande campanha.


Familiares de Carlos André Dias na cerimônia de posse dos conselheiros tutelares para o quadriênio 2020 a 2023/Imagem: Arquivo pessoal

O trabalho realizado pelo Conselho Tutelar é independente. Neste sentido, como funciona a sua carga horária, e como é feito o planejamento de trabalho?


O nosso trabalho, costumamos falar que muitas vezes nós temos horário para sairmos de casa, mas não temos horário para retornarmos. Trabalhamos em regime de plantão semanal, plantão de sobreaviso e também os plantões de finais de semana, que são de 48h. Muitas vezes, quando estamos prestes a encerramos o expediente, ou quando chegamos em casa, ainda atendemos demandas que aparecem de última hora. Caso apareça alguma denúncia, a depender da gravidade, ainda vamos à procura dos meios cabíveis para resolver a situação passada. Muitos criticam a forma de trabalho dos conselheiros tutelar, chegam até a falar que não veem o conselheiro atuar, mas, assim, quando a gente vai ver na prática, é bem diferente. A vida de conselheiro é bem corrida, nós até temos um horário fixo, mas os nossos serviços ultrapassam o nosso cronograma de tarefas. E, assim, na maioria dos casos, quem faz o nosso horário é a própria comunidade.


A sua rotina de trabalho mudou devido à pandemia do novo coronavírus?


Sim, a nossa rotina de trabalho teve certa alteração. Porque, como somos um órgão que atua diretamente com os usuários do CT, ficaríamos muito expostos a contrair a Covid-19. Então, desde que saiu o primeiro decreto do Município, no mês de março, estamos trabalhando em regime de plantão semanal, e de sobreaviso, via celular, e pelas denúncias recebidas via telefone. Mesmo com a sede do Conselho Tutelar estando fechada, continuamos a atuar em nossas áreas de trabalhos; atendendo na sede do município, nas visitas domiciliares, e as visitas de constatação. E fazendo os devidos encaminhamentos e orientações das situações.


Você recorda de quantas denúncias o Conselho Tutelar de Morro do Chapéu recebeu de janeiro até agora? De onde mais surgem essas denúncias?


É complicado falar exatamente a quantidade de denúncias recebidas de janeiro até o atual momento. Mas expresso aqui, que é uma demanda muito grande, tem dias que a gente recebe muitas denúncias, tem dias que o trabalho já é mais calmo, mais tranquilo. Na maioria das vezes, essas denúncias, elas sujem da própria comunidade, que se faz presente, e exerce o seu dever como cidadãos de bem, fazendo valer que nenhuma criança sofra por negligência e descuidos pela parte dos seus responsáveis, nos ajudando a cumprir a função das nossas atribuições, atuando juntamente conosco neste campo de proteger e defender os direitos das crianças e adolescentes do nosso município.



"Espero muito em Deus que as coisas melhorem', diz/Imagem: Arquivo pessoal

Como o Conselho Tutelar atua na zona rural do município?


O Conselho Tutelar atua na zona rural digamos que, praticamente com o mesmo contexto que direcionamos os trabalhos aqui na sede. Acompanhando a linha de atividades realizadas aqui na sede, como: as visitas de constatação, palestras, atendimentos, encaminhamentos, e etc. Na zona rural, atuamos também fazendo palestras, visitas domiciliares e nas escolas, além dos direcionamentos, encaminhamentos para os programas da rede de proteção. Então, não tem muita diferença do trabalho que prestamos na zona rural e o trabalho que prestamos aqui na sede.


Tem alguma expectativa de trabalho para o próximo semestre de 2020?


Para esse segundo semestre de 2020, espero muito em Deus que as coisas melhorem e que façamos um melhor acompanhamento em nossa comunidade, em nossas escolas e na nossa sociedade como todo. Ficamos um pouco que incapazes de irmos mais além durante esse primeiro semestre, mas também por conta dessa pandemia que se alastrou de uma forma inesperada, mas que, em nome de Jesus, tenhamos um segundo semestre calmo e que possamos realizar aquilo que não conseguimos fazer nesse primeiro tempo que tivemos de trabalho.


* Nathan Rocha é repórter do Repare Quilombo.


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