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No lixão que não cabe debaixo do tapete: catadores e mazelas sociais em Morro do Chapéu

Atualizado: 29 de Mai de 2020

“Agora, não estamos vendendo pra ninguém, tem que achar outro comprador”, afirma Gilmar, que tem a reciclagem como a sua única fonte de renda.

Por Nathan Rocha


Gilmar Santos, 53 anos, trabalha há 10 anos no lixão/Imagem: Nathan Rocha

Distante há 3 km da sede do município, com uma área total de 125 mil m², o lixão a céu aberto de Morro do Chapéu é um grave problema ambiental, entretanto, é também o local de ganha pão de Gilmar Santos, 53 anos.


Há mais de 10 anos trabalhando com reciclagem no lixão de Morro do Chapéu, Gilmar conta que vive a pior fase do seu trabalho devido à pandemia do novo coronavírus, principalmente porque “tinha umas pessoas que estavam comprando, de Feira, né, aí com esse negócio, o cara parou de comprar”, lamenta. “Agora, não estamos vendendo pra ninguém, tem que achar outro comprador”, afirma Gilmar, que tem a reciclagem como a sua única fonte de renda.


Lixão a céu aberto em Morro do Chapéu - Bahia/Imagem: Dione Veloso

“Ganhando nada. Só estamos vivendo aqui quando vende uma latinha, né, ou um cobre”, ressalta. O catador recorda que antes da pandemia, chegava a ganhar entre 500 a R$ 600,00 por mês. “Mas tinha vez que só 300, 400”, diz.


Esses valores citados é uma estimativa, feita por Santos, do que cada trabalhador do lixão chegava a ganhar antes da Covid-19. Agora, com a pandemia, o catador de material reciclável não tem medo da doença, e diz que a preocupação maior é na rua. “Aqui é mais sossegado, não tem quase ninguém, só tem nós mesmo, entendeu? Aqui, a gente usa luva, máscara, agora é porque eu tirei a máscara”, justifica.


“Nós que trabalha aqui, ninguém nunca adoeceu, graças a Deus”


“Aqui, ninguém ajudou ninguém. Eles tiraram fotos aí, disse que iam ajeitar as cestas pra gente, nunca deu nada a nós”, relata Gilmar a respeito da falta de apoio do poder público municipal. Ainda, conforme o catador, as cestas básicas mencionadas foram prometidas por representantes do poder público municipal mesmo antes da pandemia. “Disseram que todo mês dava uma cesta, não pisaram aqui mais nunca”, conta.


Conforme seu José Rodrigues, cinco famílias trabalham no lixão/Imagem: Nathan Rocha

Mesmo diante da dificuldade em encontrar comprador para o material reciclado, seu José Rodrigues, 61 anos, tem habilidade. Ele consegue vender latinhas e garrafas de vidro para um comprador local. “O mínimo, mais ou menos em 15 dias, o cara faz 150, R$ 170,00”, explica.


Contando nos dedos, seu José Rodrigues diz que, atualmente, cinco famílias trabalham no lixão. E assim como ele, todas as outras pessoas, que são amigas de seu José Rodrigues, têm a atividade de reciclagem como a única fonte de renda.


“Na cidade não tem emprego. O único recurso é aqui”, explica Maciel/Imagem: Nathan Rocha

Com 34 anos de idade, Maciel de Jesus Silva, trabalha há dois anos e meio no lixão. E desde quando começou, é obrigado a dividir o seu espaço de trabalho com dezenas de urubus, porém, conta que já se acostumou. “É o jeito, né, é meio atentado, mas tem que aturar”, se refere o catador aos urubus. “Na cidade não tem emprego. O único recurso é aqui”, explica Maciel que, tem que escolher entre trabalhar no lixão ou “ficar em casa parado”, diz.


Casado e pai de uma filha, Maciel também cuida do seu pai, que tem transtorno mental e não é aposentado. “Geralmente, eu que faço tudo, porque lá, ninguém tem emprego de nada. Eu tenho que me virar”, conta o jovem catador, que costuma ir ao lixão todos os dias, sobretudo, no horário da manhã.

Questionados sobre o uso obrigatório da máscara, como medida de prevenção ao novo coronavírus, seu José Rodrigues, que faz parte do grupo de risco por conta da idade, responde: “moço, a gente só usa mesmo lá, na hora de ir pra rua, mas aqui, nós não estamos ligando não. É porque a gente usa, depois torna sair, aí fica melando, aí não dá certo”, explica.


A respeito do não uso da máscara no trabalho, Maciel concorda com o seu mais velho colega de trabalho.


Na tarde do dia 04 de maio de 2020, a equipe de reportagem do Repare Quilombo flagrou este fogo nos resíduos/Imagem: Dione Veloso

Prazos


Há 10 anos, a Lei Federal nº 12.305/2010, que instituiu a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), estabeleceu prazos para os municípios acabarem com os lixões a céu aberto. O prazo para os municípios com menos de 50 mil habitantes instalarem os aterros sanitários é 31 de julho de 2021; este é o caso, por exemplo, de Morro do Chapéu, que tem 35.413 habitantes, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 2019.


Porém, muitos municípios têm dificuldade para cumprirem a determinação. Para melhor entender este cenário, dos 417 municípios baianos, apenas 43 cidades possuem aterro sanitário, revelou pesquisa da Secretaria de Desenvolvimento Urbano da Bahia (Sedur), divulgada ano passado.

Rosângela Teles, engenheira florestal, alerta para o pagamento de multas, caso municípios descumpram o prazo da Lei Federal nº 12.305/2010/Imagem: Arquivo Pessoal

Conforme Rosângela Teles, engenheira florestal, essa dificuldade existe “porque para extinguir um lixão da forma como estabelece a legislação (substituindo-o por um aterro simplificado ou não) é necessário um investimento alto por parte do governo municipal”, diz. Além disso, “é necessário que o município, sozinho ou em consórcio, possua um Plano Municipal de Gerenciamento Integrado de Resíduos Sólidos (PMGIRS)”, explica Rosângela.


A engenheira florestal alerta para o pagamento de multas, caso municípios descumpram o prazo da Lei Federal nº 12.305/2010, e não instalem o aterro sanitário. “O município pode ser multado, conforme previsto no Decreto Federal n° 7.404/2010 – regulamento da Lei Federal n° 12.305/2010 (PNRS), na Lei Federal de Crimes Ambientais n° 9.605/1998 e no Decreto Estadual n° 14.024/2012 e suas alterações”, explica Rosângela, que conta ainda, que “o estado, através do Inema, tem orientado e fiscalizado os municípios com frequência”, afirma.


Até a publicação da reportagem, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Morro do Chapéu não respondeu aos questionamentos do Repare Quilombo.


Margens da estrada que dá acesso aos povoados de Barra I e Barra II/Imagem: Dione Veloso


Preocupações e impactos ambientais


Representante da Rede Quilombola da Chapada Norte no Comitê Hidrográfico da Bacia do Itapicuri, Valber da Gama, 35 anos, que é gestor e educador ambiental, explica que lixões a céu aberto podem se localizar até “2000 metros de núcleos populacionais e 500 metros de residências isoladas”, diz Gama.


Valber da Gama, 35 anos, é gestor e educador ambiental/Imagem: Arquivo Pessoal

“Os moradores próximos, ou as pessoas que trabalham diretamente nessas áreas podem sofrer inúmeros problemas de saúde, devido à contaminação direta pelos diversos tipos de materiais que são descartados nesses locais”, expõe Valber da Gama. Também preocupada com essa questão, Rosângela diz que, “caso identifiquem alguma doença que pode ter sido causada pelos impactos do lixão, as Secretarias Municipais de Saúde e de Meio Ambiente precisam ser comunicadas para monitoramento da situação”, recomenda a engenheira florestal.


Um dos principais impactos ambientais causados por lixões a céu aberto, conforme Rosângela é a contaminação de solo e água através do chorume – líquido contaminante resultante da decomposição dos resíduos; e ar, através da queima desses resíduos. “Essa contaminação afeta diretamente a saúde das pessoas que residem no entorno dos lixões, ocasionando, principalmente, problemas respiratórios e proliferação de vetores de doenças; e, indiretamente, causando desequilíbrio na fertilidade do solo e na qualidade da água”, explica.


Ainda em relação a proliferação de vetores de doenças, Valber da Gama contextualiza: “esses vetores são levados pelo ar, ou pelos polinizadores que pousam nos resíduos e, após, visitam as residências e pousam nos objetos e alimentos”, explica o gestor ambiental.


Pela estrada do lixão


Uma das principais reclamações de Marisete de Souza, 24 anos, é em relação à falta de conscientização das pessoas sobre o descarte inadequado dos resíduos. Ela diz que “o povo aqui da rua joga o lixo que eles levam tudo na beira da estrada”, conta. Marisete é agricultora e tem uma roça perto da Barra I, e precisa trafegar pela estrada, pelo menos umas três vezes por semana.


“Alguns meninos mesmo do mototaxi, já vi várias vezes jogando ossos, que o povo entrega a eles, de açougue, pra levar para o lixão, eles pegam esses ossos e jogam praticamente no meio da estrada, aí vem urubu, cachorro, e pega esses ossos e esparramam na estrada toda. Eu já vi isso várias vezes. Isso poderia ser evitado. Às vezes, eu paro o carro pra poder tirar cada osso grande do meio do caminho pra poder passar, porque se passar por cima, o pneu já era”, aponta Marisete.


Conforme Marisete, "tem cavalo demais na estrada do lixão", critica/Imagem: Dione Veloso

A jovem agricultora chama atenção ainda para o problema da estrada em si, que, conforme Marisete tem ficado mais crítica devido ao alargamento do lixão. “A estrada tá muito pequena, quando encontra dois carros, um tem que ir pra dentro do lixo pra esperar o outro passar. E cavalo, tem cavalo demais na estrada do lixão”, critica.


Confira outras imagens:


Organização do material reciclado pelos catadores/Imagem: Dione Veloso

Lixão de Morro do Chapéu/Imagem: Dione Veloso

Imagem via satélite da área do lixão a céu aberto em Morro do Chapéu

* Nathan Rocha é repórter do Repare Quilombo.

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