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“O recado foi dado e racismo não passará impune”, garante Manuela, jovem quilombola da Barra II

Entretanto, depois de retratação pública, a comunidade quilombola de Barra II decidiu não registrar ocorrência sobre ataque racista cometido por Paulo Sérgio Vasconcelos.


Por Nathan Rocha


Manuela Oliveira do Carmo, 23 anos/Imagem: Carolina Pazos Peris

“Os neguinhos da Barra perderam a qualidade, foi?”. A pergunta foi pronunciada por Paulo Sérgio Vasconcelos em vídeo que viralizou em rede social no último dia 03 de maio de 2020, e direcionada aos moradores da comunidade quilombola de Barra II, no município de Morro do Chapéu.


“Meu sentimento foi de revolta, tristeza, indignação, desrespeito”, conta Manuela Oliveira do Carmo, 23 anos, jovem quilombola da comunidade de Barra II, sobre quando assistiu, pela primeira vez, ao vídeo gravado por Paulo Sérgio Vasconcelos. Conforme Manuela, a população negra precisa lutar diariamente contra uma sociedade racista, porque “senão a gente fica sempre para trás”, diz.

Comunidade quilombola de Barra II/Imagem: Manuela Oliveira

O Repare Quilombo tentou entrar em contato com Paulo Sérgio Vasconcelos, morador de Morro do Chapéu e autor da ação racista, mas até a publicação da reportagem ele não respondeu ao questionamento. Por outro lado, nos últimos dias, o diálogo foi fortalecido na Barra II, que percebeu o quanto é valorizada e respeitada por tantas outras pessoas, isso, porque “a comunidade recebeu apoio de várias pessoas, entidades e comunidades quilombolas do município”, relata Manuela.



Nota de repúdio publicada nas redes sociais, dia 07 de maio de 2020

No dia 07 de maio de 2020, a Comunidade Remanescente de Quilombo de Barra II, reconhecida desde 2006 pela Fundação Cultural Palmares, publicou nas redes sociais uma nota de repúdio. No texto, a comunidade pede “que o senhor [Paulo Sérgio] se retrate publicamente, exigimos respeito”, ressalta trecho da nota.


Depois de toda repercussão negativa, Paulo Sérgio, na mesma semana, gravou novo vídeo para se retratar. “Quero pedir desculpas aos moradores de Barra, de comunidades adjacentes que se sentiram ofendidos”, se retratou. No pedido de desculpas, ele disse ainda que estava “tomando uma cervejinha” no momento que resolveu gravar o primeiro vídeo, no qual chama os moradores da Barra II de “neguinhos”.


Comunidade quilombola de Barra II/Imagem: Projeto Multimãos

Ainda de acordo com Manuela Oliveira, representantes da comunidade foram até a delegacia local no dia 04 de maio, “só que o delegado orientou para eles retornarem outro dia”, explica. Entretanto, “depois da carta de repúdio, o senhor Paulo Sérgio pediu desculpas várias vezes, uma atrás da outra, a comunidade mesmo ainda revoltada resolveu não prestar mais queixa”, afirma Manuela, que conta que “o recado foi dado e racismo não passará impune”, garante.


“Eu, no meu ponto de vista, vendo tudo isso, um dos comentários que mais dói é quando uma pessoa diz que o negro da Barra não se aceita”


Elenita Carmo de Oliveira, a popular dona Nita, 53 anos, também moradora da Barra II, é articuladora comunitária “no sentido de fazer as pessoas mais conhecedoras do ser negro e negra na comunidade”, explica.


"A pessoa que sonha e que ama sabe respeitar o próximo”, afirma dona Nita/Imagem: Arquivo Pessoal

“Se a pessoa fica martelando o tempo todo: ‘negro da Barra II, esses neguinhos, quem é esse povo’; muitos até dizem: só presta pra beber cachaça, não sei o quê, ferindo, claro que vai sangrar. O que mais se luta é contra isso, que as pessoas não falem que os negros não se aceitam, até porque a comunidade aqui da Barra se aceita muito bem, o que não aceitamos é esse tipo de preconceito”, desabafa dona Nita, que acredita que o ser humano racista é uma pessoa “que não tem sonho, que fala qualquer coisa sem pensar”, diz.



“Uma pessoa dessas, eu não questiono muito, eu só digo assim: eu tenho pena, porque ainda não percebeu enxergar o outro. A pessoa que sonha e que ama sabe respeitar o próximo”, afirma dona Nita. Para ela, sobre o racismo na história do Brasil, “nada tá acabado”, conta. Porém, dona Nita entende que é preciso colocar um “ponto final” nesses ataques racistas, e explica como isso deve acontecer:


“É um passado muito sofrido, que vem se repetindo hoje, na nova história, mas é preciso dar um basta, e esse basta só vai acontecer, estudando, pesquisando, conhecendo a sua história, o seu passado”, conclui.


Repercussão nas redes sociais


Gabriel Oliveira, advogado e quilombola da comunidade de Velame, escreveu um artigo sobre o episódio ocorrido. Em parte do texto, que foi divulgado nas redes sociais, Gabriel diz que “Galo Rouco associa os moradores da comunidade as mais variadas doenças, inclusive a Covid-19, sem nenhuma prova do que afirma”, relata.


Para o advogado, Paulo Sérgio aumenta e reforça um “rótulo racial” quando utiliza a expressão “neguinhos”. Ainda de acordo com o texto de Gabriel, mesmo quando tal expressão é usada de forma mais cordial também reforça o racismo. Conforme Oliveira, “o imaginário racista está vivíssimo em cada palmo desse país”, afirma.


Coletivos, imprensa, alguns políticos e pessoas anônimas locais também repercutiram o assunto. Em uma rede social, por exemplo, um internauta escreveu: “É muito lamentável ser possível registrar atitudes racistas em nossa cidade (Morro do Chapéu), sobretudo nos dias de hoje, onde deveríamos ser mais sensatos”.


“Não podemos tolerar e jamais nos calar! Chega!”, escreveu outra internauta.



Print/Produção: Repare Quilombo

Racismo é crime!


Racismo é crime, previsto na Lei n. 7.716/1989, o que implica conduta discriminatória dirigida a determinado grupo ou coletividade. Como nesse crime o que se tem é a ofensa à coletividade, cabe a sua iniciativa, exclusivamente, ao Ministério Público.


De acordo com informações obtidas pela reportagem, nenhum crime de racismo foi registrado nos últimos dois anos na Delegacia Territorial de Polícia Civil de Morro do Chapéu. O município não tem a Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi).


É importante ressaltar, ainda, que uma das formas de denunciar crimes de racismo é através do Disque 100, que é o serviço do governo federal para receber denúncias de violações de direitos humanos.


* Nathan Rocha é repórter do Repare Quilombo

Sirlene Santos colaborou nesta reportagem.

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