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Perfil: “Aqui no Nordeste, a gente precisa ser um verdadeiro artista”, diz Tiquinho do Acordeon

Conheça o perfil do sanfoneiro que saiu da Paraíba quando tinha apenas 12 anos de idade numa viagem que, mais tarde, só alegraria as noites de São João dos baianos.


Por Nathan Rocha

Nicolino é artista promissor, apaixonado pelo forró pé de serra, raiz; e tem o seu pai, também como sua inspiração/Imagem: Nathan Rocha

Depois de algumas manhãs chuvosas e de muito frio, o sol começava dar as caras, timidamente, no início daquela segunda semana de junho, em Morro do Chapéu, quando conversamos com os nossos perfilados.


Ao contrário de outrora, quando no mesmo período, a Rua do Fogo acordava com o barulho do vento nas bandeirolas que, esteticamente anunciavam a ocasião junina festiva, dessa vez, o silêncio provocado pelo isolamento social causado pelo novo coronavírus, fazia com que, até o vento da segunda cidade mais fria da Bahia, parecesse ordeiro.


Nicolino Conceição dos Santos, 20 anos, filho de Tiquinho do Acordeon, foi o primeiro a chegar. Ele trouxe para o nosso encontro, o seu violão, instrumento de trabalho, de deleite, de fazer alegria e de se alegrar.


Nascido e criado numa família de forrozeiros, Nicolino, ainda com cinco anos de idade, já tocava zabumba. Hoje, com mais experiência, ele que é uma espécie de “faz de tudo um pouco” no projeto musical de forró, que é encabeçado pelo seu pai, está aprendendo a tocar o instrumento que, para ele, é o mais difícil do mundo: a sanfona.


- Hoje, eu sou linha de frente da banda Tiquinho do Acordeon. Eu comando a parte de produção musical.


Com oito integrantes e com um cachê simbólico de R$ 2.000,00, em média, a banda de forró de Morro do Chapéu costuma fazer entre 25 a 30 shows no mês de junho. Sem nenhum show no São João de 2020, Nicolino ainda não calculou o “prejuízo” deste ano.


Nicolino é artista promissor, apaixonado pelo forró pé de serra, raiz; e tem o seu pai, também como sua inspiração. Depois de alguns poucos minutos sentados na calçada de uma das casas antigas da Rua do Fogo, Tiquinho chegara, trazendo, claro, a sua sanfona.


Em instantes, começamos um novo diálogo. Já tinha prestigiado o artista pai no palco, claro, mas entrevistá-lo, ou melhor, trocar um dedo de prosa, e pessoalmente, era a primeira vez.


Então, me avexei!


Francisco Gomes dos Santos, conhecido também como Tiquinho do Acordeon/Imagem: Nicolino Conceição

Nascido no dia 22 de maio de 1968, Francisco Gomes dos Santos, conhecido também como Tiquinho do Acordeon, é paraibano - de João Pessoa, mas foi no município de América Dourada - Bahia, que ele “nasceu como sanfoneiro”, conta.


- Meus primeiros shows, meus primeiros forrós foram na região, com o apoio daquele povo. Antes da banda Tiquinho do Acordeon, eu fiz parte de trios de sanfoneiros.


Tiquinho tinha 12 anos quando deixou a Paraíba e venho para a região de Irecê com os seus pais. No município de Morro do Chapéu, ele morou primeiro na região da comunidade quilombola de Queimada Nova. Mais tarde um pouquinho, com 20 anos de idade, mudou-se para a sede do município morrense.


- Como eu estava dizendo antes, eu nasci como sanfoneiro em América Dourada. Aí, como tinha o Trio Nordestino, o Trio Petrolina, tá entendendo? Eu resolvi fundar um trio também na nossa região chamado Trio América, no qual os membros principais era eu e o meu irmão, Beiradinha, e Dio de seu Dazinho.


Na época do Trio América, não tinha palco. Tiquinho lembra que se apresentava debaixo de latada. O Trio América teve duração de seis anos. Depois, Tiquinho participou de outro projeto de forró, ao lado de seu amigo, Chico Leite. Na banda Flor de Barriguda, que Tiquinho também integrou, ele trabalhou durante 10 anos.


- Atualmente, eu faço parte da banda Tiquinho do Acordeon. Esse projeto já tem em torno de cinco a seis anos. A gente começou a divulgar através dos encontros de sanfoneiros que surgiram na região de Irecê, né, daí pra cá, Tiquinho do Acordeon está crescendo a cada dia.


A banda morrense Tiquinho do Acordeon tem seis anos/Imagem: Nathan Rocha

A base da banda Tiquinho do Acordeon é familiar. São os filhos de Tiquinho, a exemplo de Nicolino e também de Binho. Aliás, Nicolino prefere dizer que a banda é sim uma família, porque são parentes e amigos, além disso, a convivência de anos faz com que todos se sintam realmente pertencentes a uma família: a família Tiquinho do Acordeon.


“Como é que a família Tiquinho do Acordeon reagiu ao saber que este ano não teria São João?”.


Depois desta pergunta, inclusive fui até elogiado por tabela, pela importância do trabalho da mídia em divulgar o trabalho dos artistas durante a pandemia.


- Agora, não tem jeito, a gente tem que divulgar o nosso trabalho através da tela. São as informações virtuais. Mas tá muito difícil com relação a cachê, nós estamos sem ganhar nadica de dinheiro. Nesse sentido, tá zero.


Tiquinho explica que o mês de junho é aquele período que ele geralmente ganha o “troquinho de ficar o resto do ano”, diz o sanfoneiro, que lamenta toda essa situação do coronavírus.


- Aqui no Nordeste, a gente precisa ser um verdadeiro artista para você somar e arcar com as despesas do dia a dia. É uma região muito rica em cultura, porém, financeiramente é pobre, porque tem muita gente e o orçamento do país é mal dividido; uns tem muito, e outros tem nada. E nós estamos numa região que muitos têm pouco.


Tiquinho sabe que, com o cancelamento do São João 2020, o prejuízo não é só financeiro, é afetivo também. Ele conta que não é fácil ficar sem “sentir o calor humano e dos palcos” justo nessa época. Para ele, o contato físico com o público é contagiante. “Está sendo muito difícil a gente passar o nosso São João sem fazer os nossos shows”, desabafa Tiquinho.


- Porque, assim, é uma vez por ano, na Bahia. O mês de junho é quando a gente tem um tempinho para apreciar as coisas boas da nossa região.


Rua Cel. Souza Benta/Rua do Fogo/Imagem: Nicolino Conceição

Como foi insinuado no início, a nossa conversa com Tiquinho, assim também como a conversa com o seu filho Nicolino, aconteceram na Rua do Fogo, local que acontece há quatro anos a maior festa junina do município. Agora, com um clima de solidão, nenhuma bandeirola sequer é vista, nem na Rua do Fogo e nem em rua nenhuma.


Este ano, na Rua do Fogo, não vai ter o arraiá do Morro. Por tanto, a sanfona de Tiquinho não será tocada na rua do evento.



_Nathan Rocha é repórter do Repare Quilombo.

_Sirlene Santos colaborou neste perfil.

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