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“Por racismo sim, mesmo de forma velada”, diz Dantinhas sobre pouco valor dado ao Cel. Dias Coelho

Por Nathan Rocha


Antônio Barreto Dantas Júnior, Dantinhas/Imagem: Arquivo Pessoal

No próximo dia 08 de agosto de 2020, a cidade de Morro do Chapéu completa 111 anos de emancipação política. E para comemorar esta data tão importante para todos os morrenses, o Repare Quilombo conversou com Antônio Barreto Dantas Júnior, o Dantinhas, como é conhecido popularmente em toda a cidade.


Dantinhas nasceu em Morro do Chapéu, coração da Chapada Diamantina, no dia 02 de dezembro de 1962. Ele é filho de Antônio Barreto Dantas e Bernadete Matos Dantas.


Desde cedo se interessou pela arte e cultura, principalmente pela música. É compositor de canções de cunho político-social; venceu alguns festivais de música, e suas obras, dentre elas Lute, Miragem e Liberdade Virá, transformaram-se em objetos de estudos acadêmicos.


Dantinhas também é autor do livro “Coronel Francisco Dias Coelho – O Diamante Negro”. Nesta entrevista, ele fala se o seu livro foi bem aceito ou não pela sociedade morrense, sobre o racismo que ronda a história do Coronel Dias Coelho e, também, sobre “vontade política” para se resgatar a cultura local.


Busto do Cel. Dias Coelho, em Morro do Chapéu/Imagem: Sirlene Santos

Concorda que pouco se fala do Coronel Francisco Dias Coelho nas escolas públicas do município?


Concordo sim! Durante o período que estudei aqui em Morro do Chapéu, até o ano de 1977, afirmo que em nenhum momento ouvi falar em sala de aula ou em outro lugar, sobre a sua biografia. Acredito que diante da sua valiosa e imensurável importância para o desenvolvimento econômico, social e cultural do município, sua trajetória deveria ser mais contada e divulgada pelas escolas municipais e estaduais. Existe, vagamente, uma referência à sua figura, somente no aniversário da cidade.


O racismo é um fator determinante para justificar o “apagamento” ou “pouca importância” dada à figura do Coronel Dias Coelho pela grande maioria dos representantes políticos locais?


Infelizmente o racismo ainda continua presente na sociedade brasileira. Acredito que a ausência de um maior reconhecimento e valorização da importante trajetória do Coronel Francisco Dias Coelho, tenha sido por racismo sim, mesmo de forma velada. É visível que houve um movimento para o “apagamento” da sua memória por parte da classe política que sucedeu o grupo político do coronel, em 1919, após o falecimento do seu sucessor, o coronel Antonio de Benta, em 1946. Para exemplificar: seu retrato imponente que estava exposto na Prefeitura foi retirado; a Capela do Parque da Soledade, onde estão seus restos mortais e de seus familiares, foi abandonada; o imponente Prédio Escolar que levava seu nome foi transformado em Colégio Nossa Senhora da Graça, e o mais grave, não houve a preocupação de registrar e preservar o seu acervo e, especialmente, coibir mesmo de forma indireta, que sua “vida e obra” fosse abordada em salas de aula e se transformasse conhecida e admirada por todos, desde o seu desaparecimento, pois pouco se falava sobre ele. Mas, a partir de 1998, com a publicação do livro documentário da Sociedade Filarmônica Minerva, um dos seus mais importantes legados, a sua biografia começou a ser lembrada através de busto, TCC, tese de doutorado, estátua, documentários, etc. No entanto, ainda é muito pouco o que é lembrado nos dias de hoje sobre a sua história, em virtude da sua valiosa importância para a nossa terra.


Capa ilustrativa do Livro Coronel Francisco Dias Coelho - O Diamante Negro/Imagem: Arquivo Pessoal/Dantinhas

O que lhe inspirou a escrever sobre a nossa história?


A história da nossa terra e sua gente é belíssima! Mas, o que me despertou para melhor conhecê-la foi exatamente a figura do Coronel Dias Coelho. Uma bela e rica trajetória que só tive conhecimento em 1996, quando assumi a direção da Sociedade Filarmônica Minerva, mesmo após ter estudado, quando criança/adolescente, na escola que tem o seu nome. No fundo de uma caixa de papelão, onde se encontravam os documentos da “MINERVA” estava o estatuto da entidade. Ao folheá-lo, deparei-me com os nomes dos cidadãos que compunham a primeira diretoria, tendo como presidente, o Cel. Francisco Dias Coelho. A partir de então, fui tomado por um desejo intenso de conhecer mais sobre aquele que tinha fundado um dos nossos maiores e mais importantes patrimônios socioculturais, a MINERVA. Ao aprofundar-me nas pesquisas, deparei-me com a trajetória de um negro, de um homem, de um líder, de um político à frente do seu tempo! Um visionário! Um coronel que se destacou dos demais coronéis do seu tempo em virtude dos seus ideais, da sua inteligência, da sua integridade e do seu caráter! Combateu a violência com a harmonia, contrariando assim, o conceito de coronelismo, se transformando em um coronel líder amado, idolatrado, respeitado e admirado pelo seu povo e no meio empresarial e político do estado. Um negro que utilizou da sua riqueza, do seu prestigio e da sua liderança para combater o racismo e o preconceito. Sua trajetória o transformou em uma das cinco maiores e destacadas figuras negras da Bahia. Além das suas ações no social, na cultura, no desenvolvimento econômico do município, deixou seu maior legado para seus conterrâneos, a essência de ser um povo ordeiro, bom e hospitaleiro.


Viva a nossa história!

Viva a nossa gente!

Viva o Coronel Francisco Dias Coelho!


O seu livro foi bem aceito pela sociedade morrense?


Acredito que sim, porque, apesar de não ser escritor de formação, dediquei-me a pesquisar a vida desse homem e as histórias demarcaram a sua vida e, consequentemente, a história da nossa cidade. Preocupei-me, então, com uma linguagem simples, no intuito de não dificultar a leitura dessa bela história, que é a nossa também.


Você acredita que um possível descuido com a biblioteca municipal pode contribuir para o afastamento das pessoas desse espaço?


Com certeza! Uma biblioteca deve ser um local seguro, agradável e confortável. Já passou da hora de termos nossa biblioteca Carneiro Ribeiro de volta, a qual foi fundada pelo Coronel Dias Coelho, e totalmente revitalizada.


Existe uma versão digitalizada do livro “O Diamante Negro”?


Não.


O que é necessário se fazer para resgatar a cultura local ao tempo em que a mesma precisa ser democratizada e alcançada por todas as camadas sociais?


Ter vontade política! O Poder Público, através de um Plano Municipal de Cultura, que em longo prazo garanta a proteção e promoção do patrimônio, dos direitos culturais e da cultura em todo o município, o acesso à produção e à apropriação da cultura, à valorização da cultura como instrumento de desenvolvimento socioeconômico, o estabelecimento de um sistema público participativo de gestão e o acompanhamento e avaliação das políticas culturais. Resgatar nossas manifestações culturais (reisado, ternos de reis, cavalgada, marujada, exposição/festival de presépios, incentivos às filarmônicas, semana cultural etc). Política pública que garanta o exercício pleno da arte e cultura com a garantia do acesso a todos os segmentos da sociedade, de forma gratuita e democrática.

Que nosso município reencontre o seu lugar de cidade esteio da arte e cultura na Chapada Diamantina.


_ Nathan Rocha é repórter do Repare Quilombo.

_ Sirlene Santos colaborou nesta entrevista.

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