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Sem sinais do São João 2020, comerciantes e artistas lamentam o cancelamento dos festejos juninos

“Se fosse um ano normal, já estavam às lojas, as escolas, as ruas enfeitadas; aqui mesmo já estava”, explica Patrícia que, mesmo com medo do coronavírus, diz que vai reinventar a forma de trabalho.


Por Nathan Rocha


Patrícia Alves Mascarenhas, 42 anos, comerciante/Imagem: Sirlene Santos

“Aquele dinheiro não vai ser contado esse ano”, disse a comerciante Patrícia Alves Mascarenhas, 42 anos, quando soube do cancelamento do São João 2020. Dona do Point do Mocotó, junto com o seu esposo Beto, na Rua do Fogo – circuito do Arraiá do Morro, Patrícia esperava pela 4ª edição da festa, que acontece desde 2017, para complementar a renda do mês de junho.


“Tem mês que a gente tem um lucro grande, já tem mês que é baixo; o lucro nos três dias de festa, de R$ 2.000,00 em média, é o lucro de todo um mês de trabalho”, explica Patrícia a respeito do quanto à festa junina na frente de sua casa contribui para gerar uma renda extra, no período de São João. Contudo, devido à pandemia do coronavírus, a realidade este ano é outra, e a comerciante está ciente disso. “Antes da pandemia, eu abria o Point do Mocotó todos os dias, menos segunda. Minha folga era na segunda-feira. Mas agora, não tô abrindo de jeito nenhum. Eu só estou trabalhando aos domingos, vendendo mocotó, com a entrega de marmita”, conta.


Fachada do Point do Mocotó, na Rua do Fogo em Morro do Chapéu/Imagem: Nathan Rocha

Além do mocotó, Patrícia também vende feijoada, caldo, tira-gosto, torresmo e bebidas. Há 15 anos na Rua do Fogo, essa é a primeira vez que a comerciante é obrigada a fechar as portas do bar por tanto tempo. “Se fosse um ano normal, já estavam às lojas, as escolas, as ruas enfeitadas; aqui mesmo já estava”, explica a comerciante que, mesmo com medo do coronavírus, diz que vai reinventar a forma de trabalho, “porque já tem gente cobrando. Pelo menos um caldo tem que ter. Bebida, aqui, não vai sair de jeito nenhum”, garante Patrícia.


Card de divulgação do cancelamento do Arraiá do Morro 2020

O anúncio do cancelamento do Arraiá do Morro 2020, evento realizado pela Prefeitura de Morro do Chapéu, foi feito pelas redes sociais da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo (Secult), no dia 29 de abril de 2020. “Obedecendo às recomendações dos órgãos de saúde competentes e considerando o Decreto n° 049/2020 de 28 de abril, que declarou Estado de Calamidade Pública em todo território municipal, informamos o cancelamento do Arraiá do Morro 2020”, diz trecho do enunciado.


É importante ressaltar que, quando o estado da Bahia contabilizava 93 óbitos por coronavírus, o governador Rui Costa (PT), durante live, em suas redes sociais, no programa #PapoCorreria do dia 28 de abril de 2020, anunciou a suspensão dos festejos juninos deste ano em todas as cidades da Bahia. “Com todos os dados que nós temos, eu já posso anunciar que, neste ano, não teremos festas juninas em nenhuma cidade da Bahia”, disse o governador.


Governador Rui Costa (PT), durante live no seu instagram

“O São João foi o maior evento sociocultural impactado pela pandemia, e a sua não realização vem sendo sentida por artistas, por quadrilheiros, por barraqueiros, fornecedores e por prestadores de serviços”, relata a artista plástica, Normélia Borges, 58 anos, que é secretária municipal de Cultura e Turismo de Morro do Chapéu. Para ela, com o “Arraiá do Morro suspenso, a cidade entra na relação das impactadas, economicamente”, lamenta.


Normélia Borges, 53 anos, secretária municipal de Cultura e Turismo/Imagem: Gil Almeida

“O evento, como nos três anos anteriores, movimentaria uma cadeia produtiva, envolvendo os mais diversos profissionais, que dependem na sua maioria, da aglomeração de pessoas para sobreviver”, explica a secretária. Com os festejos juninos morrenses suspensos, e, conforme Normélia, essa cadeia produtiva “deixa de respirar”, diz.


A secretária municipal de Cultural e Turismo, explica ainda ao Repare Quilombo, que, “com base nos três anos anteriores, a média de artistas locais e de fora, por edição, chega ao número de 12 a 15”, calcula Normélia. Já barraqueiros e vendedores autônomos somam, também de acordo com a secretária, em média, de 20 a 25 profissionais, que, juntamente com “donos de lojas, restaurantes, hotéis, pousadas, bares e lanchonetes, deixarão de arrecadar em função da pandemia”, afirma.


Banner de divulgação da banda Gerson - O Piratinha do Forró

“Eu fiquei sem chão, porque eu perdi os contratos. E iria surgir mais”, conta Gerson dos Teclados – O Piratinha do Forró, que vai ficar, pela primeira vez, sem cantar nos palcos dos festejos juninos da região. O cantor morrense, que trabalha com música há 21 anos, contou ao Repare Quilombo, que já estava com vários shows agendados, entretanto, devido à pandemia do coronavírus, teve que desmarcar todos.


“É uma época muito boa. Eu já estava com vários shows marcados antes da pandemia. Eu tinha show para o mês de abril, maio e junho, aqui na região de Morro do Chapéu, e também na região do sertão: Cafarnaum, América Dourada, e até em Xique-Xique. Eu tive grande prejuízo nisso, viu, grande mesmo”, lamenta o tecladista.



Gerson dos Teclados, cantor e compositor/Imagem: Arquivo Pessoal

Com cinco integrantes na banda, o Piratinha do Forró lembra que já chegou a fazer 12 shows no mês de junho, porém, agora, não sabe o que fazer. “Quando eu soube do cancelamento do São João, eu fiquei sem saber o que fazer; até hoje tô sem saber o que fazer”, lamenta o cantor, que também é ajudante de pedreiro. “Mas assim que começou a pandemia, não tive mais trabalho nem de ajudante de pedreiro e muito menos pra cantar”, desabafa.


Questionado pela reportagem se pretende realizar alguma live especial de São João, Gerson disse que está pensando a respeito, mas ainda não sabe se vai fazer. O motivo, lamentavelmente, porque não tem equipamento “adequado para fazer uma live de boa qualidade”, afirma o artista, que sugere: “Eu acho que o governo municipal devia ajudar a gente. Poderia criar um abono salarial, sei lá, mesmo que fosse pouco. Salvador tá tendo aí, os artistas estão recebendo”, argumenta Gerson.


São João do Alto da Chapada


Welton Matos, 33 anos, organizador do São João do Alto da Chapada/Imagem: Pedro Henrique

Organizado na Rua Maria Avelina Matos, rua que homenageia a avó do web designer e fotógrafo, Welton Matos da Cruz, 33 anos, que é um dos idealizadores do evento junino, o São João do Alto da Chapada completaria a sua 4ª edição, este ano.


Aberta a toda a comunidade e comemorada em clima de quermesse, a festa junina do Alto da Chapada, como não poderia ser diferente, tem direito a fogueira, quadrilha junina com crianças do bairro e comidas típicas. “É bem intimista, pois somos vizinhos”, diz Matos.


“Além de todo um resgate de cultura de paz, que vem dos nossos antepassados, é uma oportunidade para lembrar os anos passados e contar histórias”


Imagem meramente ilustrativa/Arquivo Repare Quilombo

“Desde criança aprendi a festejar em comunidade essa data. Acredito que todo nordestino tem em si a essência dessa comemoração. E como bom filho da terra, eu considero essa data como a oportunidade de agradecer e comemorar todos os frutos colhidos”, afirma o organizador do São João do Alto da Chapada, que pretende, mesmo com a pandemia, acender a fogueira na frente de sua casa. Aliás, é justamente isso, o costume tradicional de acender a fogueira na noite de São João, que motiva Welton a “promover união e alegria”, conta o jovem nordestino.


Dona Lindinalva, dona Bena (também organizadora da festa), Welton e as crianças do bairro Alto da Chapada durante o ensaio do ano passado/Imagem: Arquivo Pessoal – Welton Matos

Conforme Matos é “entristecedor não poder comemorar nossa tradução, ainda mais quando a razão é uma pandemia que está devastando o mundo”, diz. De acordo com Welton, a sua mãe, dona Lindinalva Matos, é uma das principais apoiadoras do evento, porém, ele também recebe ajuda de amigos, vizinhos, instituições públicas e privadas. “Como de costume, eu peço e recebo ajuda de vários amigos de Morro do Chapéu. Sou grato a todos que contribuíram em cada doação”, agradece.


Lei Aldir Blanc


É importante lembrar que foi aprovada no Senado Federal na quinta-feira, dia 4 de junho de 2020, a Lei de Emergência Cultural Aldir Blanc, que dispõe sobre ações emergenciais destinadas ao setor cultural a serem adotadas durante a quarentena.


Ainda de acordo com o Projeto de Lei n° 1.075/2020, Estados e Municípios deverão receber R$ 3 bilhões, sendo divididos: R$ 1,5 bilhão para Estados e R$ 1,5 bilhão para Municípios. Sendo assim, apenas o município de Morro do Chapéu poderá receber R$ 247.009,68.


No entanto, a área técnica de Cultura da entidade reforça que o texto pode sofrer alterações, visto que ainda depende de sanção presidencial. Caso seja aprovado na integralidade, os recursos serão repassados pela União no prazo máximo de 15 dias após a publicação da Lei de Emergência Cultural Aldir Blanc.


* Nathan Rocha é repórter do Repare Quilombo.

* Sirlene Santos colaborou nesta reportagem.


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