• Repare Quilombo

“Ser mulher e estar nessa função é um tanto desafiador”, diz a cineasta Elizângela DaSilva

Por Nathan Rocha

Elizângela DaSilva durante a produção do videoclipe "Rufar" - 2021/Imagem: Murilo Santana

Curtas de ficção, documentários, videoclipes e filmes experimentais... No começo das contas de um trabalho promissor, já são mais de 20 produtos audiovisual realizados por Elizângela DaSilva, cineasta morrense, formada em Cinema e Audiovisual, pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).


Entre os principais trabalhos da artista, como diretora de arte, estão: “Icó – A História de João Valente e Zé Baixinho” – 2018, dirigido por Aragonez Fagundes e Simário Seixas; e “Assombramitos” – 2020, que também tem direção geral de Elizângela DaSilva. Como diretora de produção, Elizângela trabalhou em “Cartas para Ana” - 2019, dirigido por Carla Carolina; e em “E o que a gente faz agora?” – 2019, dirigido por Mari Pontes. Como produtora de objetos, está “A Vida é pra valer” – 2018, dirigido por Marvin Pereira. Recentemente, com 27 anos de idade, a jovem cineasta de Morro do Chapéu, colheu os louros por seu trabalho no filme Icó, como “melhor direção de arte” no festival RIMA – Rio de Janeiro International Monthly Awards; o quarto prêmio recebido nesta categoria.


Atualmente, Elizângela reside em Morro do Chapéu e trabalha como mobilizadora social na área da comunicação e elaboração de mídias. Nesta entrevista ao Repare Quilombo, ela fala sobre o que chama de “apagamento ou não reconhecimento” do seu trabalho pela mídia local; explica o porquê de fazer cinema no interior e diz, ainda, se é de esquerda, de direita ou detergente.


Confira abaixo a entrevista:


"O Governo não dá o mínimo sinal de melhora", diz a cineasta. Foto no set do curta-metragem "desamor" - 2019/Imagem: Taylon Protásio

Mesmo aos trancos e barrancos, e depois de muita mobilização dos movimentos sociais e de alguns políticos, o Brasil teve a aprovação da Lei Aldir Blanc, em meados do ano passado, o que, de certa forma, tem ajudado artistas de diferentes segmentos culturais, durante a pandemia. Neste sentido, você acha que o Governo brasileiro é referência nas leis de fomento à produção audiovisual?


Não sei muito sobre leis de incentivo fora do Brasil, mas sei que o país já foi um grande incentivador do cinema nacional. Hoje, o Governo é muito insuficiente, com a extinção do Ministério da Cultura, a ANCINE está sucateada; os incentivos cada vez mais escassos. A Lei Aldir Blanc de incentivo foi um respiro para o setor no final do ano passado e começo desse ano, mas a perspectiva de melhora é inexistente... O Governo não dá o mínimo sinal de melhora, mas isso não é só no cinema né, a gente sabe. Em 2019, eu tive colegas de profissão próximos a mim que foram censurados em festivais pelo simples fato de se manifestarem contra o atual governo, o cinema no Brasil não é censurado dessa forma desde a época da ditatura, os tempos são sombrios para os artistas, o cinema está em perigo, mas nós sempre sobrevivemos, vamos resistir.


Em uma rede social, a Vila Ventura Filmes, ao divulgar a premiação do filme “Icó – A história de João Valente e Zé Baixinho”, nas categorias “melhor direção de arte” e “melhor ator coadjuvante”, no RIMA – Rio de Janeiro International Monthly Awards, fez a seguinte descrição: “Depois de algum tempo fora do circuito de festivais #IcóOFilme foi premiado”... Esta premiação foi uma surpresa? Conte um pouco sobre a sua experiência à frente deste trabalho e quantos prêmios você já ganhou através dele?


A etapa de distribuição dos filmes da produtora em festivais fica comigo, e para distribuir os filmes usamos, também, uma plataforma digital chamada filmfreeway, onde armazenamos os filmes e inscrevemos nos festivais cadastrados nesta plataforma. No circuito de festival os filmes tem o que chamamos de ‘período de vida’ que dura em média dois anos, isso significa que, depois de lançado, temos dois anos para enviar este filme para os festivais. O Icó foi lançado em 2018, o período de vida dele foi até o início de 2020, então parei de distribuir ele. Acontece que o RIMA é um dos poucos festivais que aceitam filmes com mais de dois anos de lançados, e como o filme já estava cadastrado no filmfreeway, fiz a inscrição, e o resultado tá aê né, dois prêmios para o filme, mostra que ele está envelhecendo bem até [risos].


Quais as inspirações para as suas criações? As suas produções audiovisuais seguem alguma linguagem especifica? Qual?


Acho que essa é uma das perguntas mais difíceis de responder, porque, por mais que eu tente ela vai parecer clichê, mas é a mais pura verdade. Minha inspiração vem de minha mãe, de minha infância, da minha cidade que é linda, cheia de cultura e belezas naturais, basicamente tudo que me cerca me inspira, se eu já troquei algumas horas de ideias com você pode ter certeza de que dali já tirei alguma inspiração para algo.


Por que estudar e trabalhar com cinema no interior da Bahia?


Porque eu sou doida e gosto de sofrer [risos]. Não, brincadeira (mas é verdade). Em 2014, quando eu conheci o mundo por traz das câmeras, eu só pensava o quão incrível era colocar as coisas na tela, com o tempo eu queria que tudo virasse cinema. O interior é um lugar mágico, cheio de histórias que merecem virar filmes para serem vistos por todos que puderem ver e é isso que eu tento fazer, mostrar pra quem queira ver as histórias que eu vejo.

Gravações do curta-metragem "E o que a gente faz agora?" 2019/Imagem: Adrielly Novaes

Em 2019, a Vila Ventura Filmes lançou uma vaquinha online para arrecadar fundos para a produção de um curta-metragem, intitulado de “Pó-só: O conto da Mata”; produção essa que resultou no seu trabalho de conclusão de curso da faculdade, agora, no início de 2021. Comente um pouco sobre esse projeto e a dificuldade de conseguir incentivo financeiro para produções audiovisuais em Morro do Chapéu.


Isso, essa vaquinha foi pausada devido a pandemia né, assim como a produção do filme. Então, meu TCC focou apenas na parte teórica do projeto. Desde 2015 pedimos apoio ao comercio para realizar nossos filmes, no geral eles abraçam o projeto e apoiam, a gente nunca conseguiu um apoio significativo de nenhuma gestão ainda. Apesar do apoio dos comerciantes, o valor não dá para remunerar equipe, no máximo, paga as despesas da produção do filme. Mas a gente segue tirando de onde não tem para produzir e contando com a parceria de amigos e família, se for esperar um patrocínio grande pra pagar equipe a gente não faz filme.


Bora falar de forma mais informal?


Eita, bora!


Curta-metragem "Assombramitos" 2020/Imagem: Murilo Santana

Você passa a imagem de séria, de mandona no set. É isso mesmo?


Quando estou na função de direção de produção pode até ser [risos], a função meio que pede isso sabe? A responsabilidade de coordenar o set, tudo tem que tá no lugar certo, do jeito certo, comida pro povo, transporte, equipamentos... Ser mulher e estar nessa função é um tanto desafiador. E eu tenho pouco mais de um metro e meio né, se eu não me impor, sai do controle, e aê, ás vezes, acontece de eu ser um pouco mais do que precisa, mas nada que fizesse perder a amizade com alguém. Mas aê quando estou como diretora ou diretora de arte sou mais calma, porque né, a pressão é menor, a maneira de levar as coisas muda.


Você parece não ser vaidosa. Quase não vemos o seu nome enquanto cineasta na mídia local.


Primeiramente, queria falar que acho essa pergunta muito estratégica, porque a não presença do meu nome na mídia local não é falta de vaidade minha e sim um apagamento ou não reconhecimento do meu trabalho. Eu sou a única mulher morrense formada em audiovisual que trabalho, aqui, na cidade, fora isso só temos mais uma outra mulher que há anos não mora aqui. Já tive (no mesmo ano) três filmes que assinei a direção de produção no maior festival de cinema da Bahia (Panorama Internacional Coisa de Cinema); outros três filmes no maior festival de cinema do nordeste (Circuito Penedo de Cinema); e um filme no maior festival de cinema do Brasil (Festival Gramado de Cinema). Nestes filmes, eu assinava a direção de produção e/ou direção de arte, e tem outros tantos festivais que estes filmes percorreram e mesmo com esse currículo, eu ainda ouço algumas pessoas me falarem que não sabia que eu fazia cinema, que achava que eu apenas ajudava meu companheiro nas produções dele, quando na verdade, meu currículo é extenso. Eu me esforço, tenho um perfil no instagram só para mostrar minhas produções, a divulgação nas redes sociais da produtora sempre está mostrando tudo o que é produzido por mim e pelos outros membros da equipe, também. Mas parece que sempre vou ser colocada à sombra de alguém.


Ultimamente, várias pautas sociais estão sendo discutidas nas redes, principalmente por gente que não entende de nada. Quem é você no rolê digital?


Eu sou a pessoa que tenta [risos]. Eu tento entender o que tá acontecendo, tento aprender mais sobre as pautas que não conheço. Antes, eu até entrava nessas discussões, mas depois de um tempo a gente percebe que essas pessoas que não sabem de nada e vivem falando merdas nas redes sociais elas não querem aprender, é como se a gente falasse pra uma porta... E eu continuo tentando, tentando não entrar em treta pra não me estressar com esse povo. Mas nunca, jamais vou deixar de me posicionar pelo que eu achar que for o certo.

Elizângela maquiando o ator Elias Guimarães, que é seu pai na vida real, nos bastidores do curta-metragem "Icó - A História de João Valente e Zé Baixinho" 2018 /Imagem: Thyago Venuto

De esquerda, de direita ou detergente?


Ser artista (mais o combo, mulher, negra, nordestina, do interior, filha de lavradora) e ser de direita é muita incoerência, né?!


Alguma religião ou prefere acreditar na seria do Pó-Só?


A sereia do Pó-Só é mais que uma religião [risos]. Mas prefiro dizer que sou curiosa em relação à religiões, algumas acho que vale a pena dedicar uma atenção maior.


Saída:


Muito obrigada pela oportunidade de falar sobre mim e meu trabalho, e parabenizar este projeto lindo que é o Repare, e dizer que continuem, estão no caminho certo, fazendo um ótimo trabalho.

Sigam a Vila Ventura Filmes nas redes sociais e me sigam no instagram @estamos_por_quem. Ah! Não esqueçam de assistir e compartilhar nossos filmes.


_Nathan Rocha é repórter do Repare Quilombo.


Confira os cartazes de dois trabalhos de Elizângela:


Cartaz por Murilo Santana

Cartaz por Marcos da Matta

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