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“Sofro preconceito não só por ser negra, mas por morar num barraco e por ser gorda'', diz moradora

Atualizado: Mai 19

Com 11 pessoas morando na mesma casa, família enfrenta diversas dificuldades no bairro Alto da Chapada, em Morro do Chapéu.


Por Nathan Rocha

Dona de casa enfrenta diversas dificuldades no bairro Alto da Chapada/Imagem: Nathan Rocha

Uma dona de casa, oito filhas e dois netos. Total de 11 pessoas que residem numa casa de seis cômodos. Dos três quartos, um deles foi construído há pouco mais de dois anos, nos fundos da residência, através de doações de uma igreja. E esse número excessivo de pessoas numa mesma casa, por exemplo, é uma das inadequações domiciliares apontadas pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio - PNAD Contínua, que permite comparar resultados do conjunto populacional a partir de informações relativas às características dos domicílios brasileiros.


Mas dividir o mesmo teto com as suas filhas e netos não é o problema enfrentado por Joelita Rodrigues do Carmo, 39 anos. Com problemas respiratórios, a dona de casa não tem um emprego formal. A única renda fixa da família é oriunda do Programa Bolsa Família, que é complementada com diárias de faxina e lavagem de roupas. Isso, quando Joelita ou uma de suas filhas mais velhas, encontra. No final das contas, conforme a matriarca, a família sobrevive com metade de um salário mínimo.


“No começo da pandemia, eu ainda fazia faxina: uma, duas, três vezes na semana; e lavava roupa. Agora, não. Agora, eu tô com uma roupa sozinha, lavando”, explica Joelita a respeito da dificuldade em conseguir fazer alguns bicos de trabalho, com o avanço do coronavírus, em Morro do Chapéu. Desse modo, com todas as pessoas adultas desempregadas e com uma renda bem inferior ao salário base, que é utilizada basicamente para a compra de alimentos, Joelita atrasou a conta de água, que foi cortada pela Embasa. Daí, a família ficou um mês sem água encanada. Nesse período, as filhas de Joelita pegavam água em uma das casas vizinhas. A água foi religada na semana passada, porque, conforme Carmo, só foi possível quitar a dívida, devido a uma doação recebida.


“Ela tá toda pra cair. Minha casa tá toda rachada, quando chove começa cair até os barros", lamenta família morrense/Imagem: Nathan Rocha

Com uma dificuldade a menos, Joelita se preocupa mesmo é com a estrutura das paredes da sua casa, que estão rachadas. “Ela tá toda pra cair. Minha casa tá toda rachada, quando chove começa cair até os barros. Molha dentro dos quartos. Queria pelo menos fazer os ‘amarradios’ para não cair. Um rapaz me doou três sacos de cimento e uns blocos, mas não tenho condições de pagar alguém pra poder fazer”, lamenta Joelita por não ter condições financeiras de reformar a casa.


Neste sentido, é importante ressaltar que, ainda de acordo com a PNAD Contínua, a concentração de renda observada no Brasil, bem como as significativas desigualdades regionais e raciais, reflete-se nas condições de moradia da população do país. Além disso, a condição de pobreza monetária, escancara uma situação de maior vulnerabilidade.


Racismo: outro problema


Além da falta de emprego, família lida com o racismo e gordofobia em Morro do Chapéu/Imagem: Nathan Rocha

Em conversa com a reportagem, Joelita contou, também, que sofre muitas críticas das pessoas, principalmente da vizinhança, simplesmente por estar inserida num contexto social de vida considerado inferior para os padrões da sociedade. “Eu sofro preconceito não só por ser negra, mas por morar num barraco e por ser gorda'', denuncia Joelita, que lida com o preconceito na própria família.


“Às vezes, as pessoas criticam porque a gente não tem uma casa boa. Como é que vai ter? Se não tem emprego. Se a gente for roubar, vai presa. Por a gente ser negra e preta o povo acha que vai roubar, mas não. Isso nunca passou pela minha mente. Sempre dou conselhos às minhas filhas. Eu peço, não vou mentir. Peço mesmo, mas roubar, nunca”, desabafa Joelita, que ainda critica o Governo Federal Genocida:


“Péssimo! Já começa pela cidade em que a gente mora. Tem gente que veio de fora e tá trabalhando, eu conheço. Eu tô falando porque eu conheço. Os daqui, as minhas meninas mesmo, botaram currículo em tudo quanto foi canto e tão paradas”, afirma.


Diante deste cenário, vale ressaltar que, no mês em que completa 133 anos da Lei Áurea - nº 3.353, que concedeu liberdade aos povos escravizados no Brasil, “a realidade desse povo continua difícil e desafiadora”, diz a professora de história, Marilene Pereira, 42 anos. Para Marilene, “o racismo, o preconceito, a exclusão social e a falta de oportunidades continuam presentes na vida de cada negro e negra”, afirma.


Ainda de acordo com a professora, no Brasil, o poder tem cor: “os brancos estão no poder”, pontua Marilene. Ela explica, também, que a falta de integração social do povo negro, desde 1888, data da abolição da escravidão nacional, é de responsabilidade dos governos, Federal, Estadual e Municipal “porque se negam a colocar em prática políticas de Estado que corrijam essa dívida histórica para com a população negra”, aponta.


Por outro lado, Marilene também aponta a solução para acabar ou minimizar a desigualdade brasileira. “Primeiro, tem que pôr em prática a equidade para garantir a igualdade de direito e de acesso para a população negra. Garantir o acesso à educação pública, de qualidade e gratuita para todos”, defende a professora, que fala sobre a necessidade de “erradicar o preconceito, o racismo e a intolerância religiosa”, conclui.


Desempregada desde quando se formou


“Não por não ter emprego na cidade, porque, às vezes tem. Já entreguei muitos currículos em todo canto que você pensar, mas, o emprego aqui no Morro é por conhecimento”, comenta Michele do Carmo Lima, 20 anos, uma das filhas de Joelita.


Formada no curso Técnico em Alimentos, em 2019, pelo Cetep Chapada Diamantina II, Michele perdeu as contas de quantos currículos já entregou em mercados, lojas de móveis e até na prefeitura de Morro do Chapéu. Entretanto, conforme a jovem, nunca teve retorno ou sequer foi chamada para uma entrevista. Ela também já fez o cadastro duas vezes no SineBahia, que é o órgão responsável por identificar, analisar e encaminhar profissionais para as vagas oferecidas pelos empregadores, mas nenhuma oportunidade até o momento.


“O jovem de Morro do Chapéu não tem espaço. Quase todas as minhas colegas que se formaram junto comigo foram embora. E as que eu conheço, que estão trabalhando em restaurantes, trabalham pra ganhar meio salário mínimo”, critica Michele, que estava fazendo bicos como cuidadora de idosos, porém, foi dispensada do serviço por telefone, na sexta-feira dia 14 de maio. “Me dispensou, agora tô parada novamente. Tava falando com a vizinha, vou entregar currículo mesmo sabendo que não tem retorno”, diz.


Com o sonho de cursar faculdade de nutrição, Michele também tem vontade de ir embora. Ela diz que já chorou muito ao ver a mãe passar necessidades com “uma pessoa formada dentro de casa e as pessoas na rua não dão emprego pelo fato de você ser negra, pobre e por não ter conhecimento lá dentro”, lamenta a jovem, que dorme em um colchão, no chão. “Duas irmãs, no outro quarto, no chão, e eu aqui, porque não tem cama. E se tivesse, não teria espaço. Vai tirar o guarda-roupa e colocar as roupas onde? Eu só vivo gripada”, conta Michele, que testou negativo para o coronavírus, após ir à UPA, recentemente, com sintomas gripais causados pela friagem do piso.


Sem cama, jovem dorme apenas em colchão, no chão/Imagem: Nathan Rocha

“É muito fácil um rico, um político e um dono de empresa chegar e ver uma jovem negra se prostituindo e falar, do que chegar e estender a mão”


“A gente não tem noção de quanto eles ganham, mas tenho certeza que mil e cem não é”, argumenta Michele a respeito dos salários elevados que políticos brasileiros ganham, enquanto a maioria da população se encontra desempregada e passando por necessidades básicas. “Outra coisa, eu já vi meninas da minha idade se prostituindo com caminhoneiros. Aí, muitos deles, Conselho Tutelar, assistência social, chegam em cima da mãe, colocando pressão, mas alguém já chegou e perguntou: por que você se prostitui? Por que você usa droga? Agora, o dedo para apontar e falar, todos fazem. Isso, quando a polícia chega e não mata”, critica a jovem a respeito da fragilidade na execução das políticas públicas de assistência social e de segurança do país.


De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), em 2018, o salário médio mensal do município de Morro do Chapéu era de 2.0 salários mínimos. A proporção de pessoas ocupadas em relação à população total era de 10.4%. Considerando domicílios com rendimentos mensais de até meio salário mínimo por pessoa, tinha 50.8% da população nessas condições, o que o colocava na posição 231 de 417 dentre as cidades do estado baiano.


_Nathan Rocha é repórter do Repare Quilombo.

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